A culpa e a rosa

É curioso como a sociedade e seus padrões de comportamento nos atropelam constantemente. Somos julgados a todo momento – pela forma como nos vestimos, nos expressamos, nos comportamos. E sim, é verdade que isso sempre fez parte do tecido social, talvez aparentemente não haja nada de novo nessa questão. Porém, recentemente, vivi algo que me fez refletir mais profundamente sobre essas percepções.

Era um dia qualquer e sem motivo específico, decidi comprar flores para minha esposa e entregá-las no trabalho. Como a amo, queria surpreendê-la e imaginar sua mistura de timidez e alegria ao receber o buquê diante dos olhares curiosos. Como previsto, ela ficou radiante. Mais tarde, ao chegar em casa, me agradeceu com carinho e contou como tudo havia acontecido. Foi então que algo inusitado chamou minha atenção.

Ao anunciar a entrega, o porteiro fez um comentário que parecia banal, mas dizia muito sobre nossa cultura:
“Oi, dona [minha esposa], chegou uma coisa pra senhora. Por acaso você e seu marido brigaram?”
Minha esposa, surpresa, respondeu: “Como assim? Não entendi.”
Ele então explicou: “Ah, é que chegou um buquê de flores. Geralmente, quando alguém manda flores, é porque quer se desculpar por alguma coisa.”

Embora tenha sido dito como uma brincadeira, e obviamente foi, todo mundo atualmente faz isso, esse comentário expôs algo maior: a ideia profundamente enraizada de que presentes, como flores, estão mais associados a reparação de erros do que a simples demonstração de afeto.

Perdemos, em algum momento, a essência de presentear pelo prazer de surpreender, de compartilhar amor, ou de alegrar o outro sem motivo aparente. Hoje, muitas vezes, presentes, principalmente flores, são vistos como um pedido de desculpas materializado, como se pudéssemos “comprar” perdão ou afeto, e de fato as vezes infelizmente, algumas pessoas se “vendem” e outras, entendem que a melhor forma seria “comprar” o perdão, ao invés de assumir o erro e reconciliar-se com uma boa conversa.

Isso me preocupa um pouco. Significa que, de forma implícita, aceitamos que sentimentos possam ser negociados, que o perdão é algo a ser conquistado por meio de bens ou gestos grandiosos. Mas o perdão genuíno não se compra – ele é um ato de graça, algo que se dá porque queremos e podemos, não porque estamos sendo “pagos” por isso.

Relacionamentos construídos sobre produtos e serviços correm o risco de perder a profundidade, e perderão! Não são os presentes que fortalecem uma vida a dois, mas o respeito, a honestidade e a conexão verdadeira. Entende? Presentes são ótimos, eu diria essenciais, mas não acredito que em momentos onde uma boa conversa se faz necessária, os presentes deveriam se tornar protagonistas.

Por isso, presenteie quando quiser, sem razões ocultas ou dívidas emocionais. Que flores sejam flores: simples, belas e repletas de significado pelo que são, e não pelo que “precisam” consertar. 💐. Em suma, relacionamentos verdadeiros não podem ser comprados, podem ser vividos! Amor é dar ao outro aquilo que eu não tenho, sem esperar nada em troca. Só essa frase daria material para mais uns 100 posts, mas vamos deixar para a próxima.

Fico aqui na torcida para que você encontre relacionamentos verdadeiros, aqueles que o dinheiro não pode comprar.

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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