A unha do dedão do pé

A percepção diária é a mãe da gratidão

Sabe como é! O problema é a unha do dedão do pé.

Eu tenho uma vida boa,
Sou feliz até quando ando à toa.
Mas, você sabe como é,
O problema é a unha do dedão do pé.

Oh! Coisa dura e doída!
Não tenho dúvida que na minha vida!
Digo com certeza, ainda que pareça mentira,
Exista outra coisa tão feia e maldita.

No caminho há sempre alguém a cumprimentar,
Pontes seguras e firmes, onde eu possa passar.
Havendo pedras no chão, estendo a minha mão,
E com muito manejo, desvio de tropeçar.

Fico feliz então, por ileso ao outro lado chegar.
Ao lado, vejo um enorme pé de manga,
Que me faz buscar pela sombra gratuita, infinita!
Bom, pelo menos enquanto eu quiser descansar.

Mas, um lamento é sempre bem-vindo,
E quase sempre todo mundo acaba ouvindo.
Você sabe como é,
O problema é a unha do dedão do pé.

Chego então, bem próximo ao meu lugar,
Olho de longe, e não demoro a contemplar:
Lá está, Dona Maria, olhando pela janela da pia,
Lavando a louça e me esperando chegar.

Sento na mesa, logo vem Dona Maria
Exibindo toda sua destreza, com um bolo pronto! No ponto!
O que não me causa estranheza, afinal,
Há muito tempo recebo a mesma gentileza.

Sinto o cheiro do doce cuidado, falo não somente do bolo!
E também do delicioso café coado, ah que coisa boa!
Bem, eu sei que também, ela não faz isso à toa.
Talvez esperançosa ela fique, com a recompensa que ecoa.

Agradeço o alimento, não sem antes deixar o meu lamento,
Aquele que todo mundo acaba ouvindo, e sabe como é:
O problema é a unha do dedão do pé.

Me ponho no caminho novamente,
Sofrido, sofrido! Como sempre,
Oh! Coisa dura e doída!
Será que existe outra coisa tão feia e maldita?

Talvez exista parecida, talvez até alguém insista,
Que nem tudo isso é, que possa até ser coisa de muié,
Mas só quem sofre entende né?
A dor da unha do dedão do pé.

Rodrigo Bazzan – 24/01/2025.

Reflexão:

Perceba que o poema traz um personagem que, apesar de ter uma vida boa e momentos de prazer, se fixa na dor da unha do dedão do pé. Isso reflete como, muitas vezes, nos concentramos no que nos incomoda, mesmo quando temos coisas boas ao nosso redor. Psicanaliticamente, essa insistência na dor pode ser vista como uma resistência ao prazer ou um mecanismo de defesa: o sofrimento se torna familiar e, inconscientemente, o personagem escolhe reclamar ao invés de aproveitar o que é positivo. A reflexão é sobre como, em vez de valorizar as bênçãos da vida, muitas vezes nos apegamos ao que nos causa desconforto.

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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