Ferreiro de pau?

As implicações de não se valorizar corretamente

Tenho absoluta certeza de que você já ouviu este ditado: “Em casa de ferreiro, o espeto é de pau.” A interpretação que se desdobra é um consenso: “… sou muito bom nesse tipo de coisa, mas para os outros! Quando é pra mim, pode ser de qualquer jeito.”

É bom e esperado que as coisas sejam feitas com amor. Amar ao próximo não se trata apenas de uma questão religiosa, mas de viver em sociedade. Esse nível de amor, obviamente, pode variar de acordo com o indivíduo e a circunstância.

Mas por que será que, quando é para nós, a coisa sai de qualquer jeito?

Refletindo um pouco a respeito, cheguei a algumas possibilidades. A primeira:

Preguiça!

Ah, que canseira! Sou um excelente chefe de cozinha, entrego sempre os melhores pratos, com sabores e aromas distintos e intrigantes, desperto o desejo das outras pessoas de apreciarem minha técnica gastronômica, mas hoje… ah, estou tão cansado! Vamos de macarrão instantâneo mesmo. Até aquele temperinho cancerígeno serve.

Outra possibilidade? Vamos ver:

Mediocridade!

Preguiça rima muito bem com mediocridade. É fazer de qualquer jeito, mesmo tendo condições e capacidade de realizar de uma forma muito melhor. Nesse caso, é provável que estejamos sendo medíocres conosco, talvez pelo fato de, inconscientemente – ou, pior ainda, conscientemente –, acreditarmos que não merecemos tamanho “trabalho”.

Amar ao próximo, tudo bem! Mas amar a si mesmo? Ah, isso já é cansativo demais.

Sim! Amar dá trabalho. Requer entrega, comprometimento, sentimento de valia em relação ao outro. “Hoje estou cansado, mas… nossa, essa pessoa é gente boa! Ela é minha melhor amiga, ela merece…” Mesmo assim, decidimos “amar”, no sentido de entregar o melhor. E isso cansa, sim!

As pessoas que mais sabem cuidar são justamente aquelas que não tiveram o cuidado necessário quando eram crianças. Perdidas em sua busca por amor e atenção, tornam-se exímias em proporcionar ambientes de extremo prazer, alegria, segurança e conforto.

Para o outro! Nunca para si mesmo.

É um movimento de compensação. Fazemos isso o tempo todo, em diversas áreas da nossa vida. Nesse caso, quem não foi cuidado muito provavelmente se tornará um excelente cuidador.

Ora, mas isso não é bom? Depende! Quando existe apenas compensação, a coisa fica desbalanceada. Olhar para o outro é importante, mas como alguém pode cuidar bem se não está bem? Não parece óbvio que, se o “churrasqueiro” trabalhasse com espetos de ferro (sem mediocridade consigo mesmo), a coisa seria muito melhor?

Cuidar do outro implica cuidar de si mesmo. Você pode até parecer um bom cuidador, negligenciando seus sentimentos e suas dores, mas não vai conseguir fazer isso por muito tempo. Até a energia da compensação – que, no momento, lhe traz satisfação – com o tempo irá se esgotar, sobrando apenas as suas dores, a falta de cuidado consigo mesmo e os restos das feridas alheias.

Cuide-se.

Rodrigo Bazzan – 30/01/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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