“a comida é de boa qualidade, ou o pior tipo de lixo serve?
Esse texto não é sobre culinária! Apesar de gostar muito de comer coisas diferentes e com sabor exótico – aliás, minha comida predileta é lasanha –, #ficadica!
Recentemente, tenho me esforçado para ir à academia todas as manhãs por volta de 05h40, 06h00. Eu gosto? Não! Odeio academia, mas tenho convicção de que, para mim, isso é realmente necessário, e de fato tem me feito muito bem.
Lá onde frequento – acredito que como em todas as outras –, uma televisão fica ligada sem áudio, passando algo. Imagino que seja justamente para entreter aqueles que, como eu, não estão ainda tão focados no treino e necessitam de alguma distração para a “árdua” tarefa de caminhar.
Na tela que cravo meus olhos, passa o jornal da manhã, com as “principais notícias para o seu dia” – esse é o slogan do jornal. Começa então com a seguinte matéria: “Criança de 2 anos de idade é baleada em assalto no centro da cidade tal…”
Isso de imediato me chama a atenção! “Que absurdo! Como pode uma coisa dessas ter acontecido? O que está acontecendo com as pessoas?”, dentre outros sentimentos que começam a despertar dentro de mim nesse dia, por volta das 06h10.
Na segunda notícia que aparece, mostram uma pessoa passando mal e caindo na rua. Era uma esquina e, logo, um outro carro, sem perceber a pessoa, passa por cima dela. O carro para bem em cima! Lá vou eu novamente: “Meu Deus do céu, que ‘cag@d@’, que loucura! Como ninguém ajudou essa mulher? Como esse cara não viu e passou por cima dela?”
O sangue já começa a ferver em cima da esteira. Revolta e indignação são os principais sentimentos que batem à porta imediatamente. A cena fica se repetindo várias vezes. Como não tenho o áudio, não há sequer a possibilidade de um alívio mediante uma possível informação de que a mulher não tenha morrido. “Meu Deus do céu!”
Caminho mais um pouco olhando para baixo da esteira. Já nem lembrava mais que estava em um exercício benéfico para minha saúde, que estava em um momento que deveria ser dedicado a mim. Quase caindo do equipamento, acerto o passo e volto para o treino.
Não demora muito e logo vem outra matéria: “Avião se choca com helicóptero nos EUA, e tantas pessoas morrem.” Dou um salto de imediato: “Ô loco! Qual a probabilidade disso acontecer? Quando um avião, mesmo se quisesse, conseguiria acertar um helicóptero? Caramba! Morreu todo mundo!”
De sobressalto, então, paro e penso: Chega! Não quero mais esse tipo de coisa logo cedo. Não me parece que algo de bom possa vir desse tipo de “café da manhã”. Aliás, o café da manhã, para mim, é uma das refeições mais sagradas, feita em conjunto com meu filho, minha esposa e meus quatro gatos.
Decido então mudar de aparelho, termino meu treino e vou embora para, então, tentar de alguma forma – aí sim, no meu café da manhã em família – balancear essa loucura de sentimentos.
Mas por que prestamos tanta atenção em tragédias? Por que não existe a veiculação de “coisas boas”, de boas notícias? Porque boas notícias não ativam um processo arcaico de sobrevivência no reino animal, o “luta ou fuga”.
Esse processo, quando ativado, traz todo o foco do indivíduo para a questão que se apresenta. Ativa-se sempre que existe algo fora do normal, um alerta de que algo não está ou não se apresenta como deveria – principalmente quando se trata de vida ou morte.
O que significa, então, para a mídia? “Ahaa! Chamei sua atenção! Agora você é meu!” Estratégia, pura estratégia.
O problema é que, nos dias atuais, esse mecanismo é ativado a toda hora. Lá no Paleolítico deveria ser um “céu” comparado aos dias atuais – um dente-de-sabre aqui, outro ali –, mas tudo dentro do normal, se comparado à velocidade de veiculação de tragédias minuto a minuto.
As consequências disso implicam em toda a química cerebral. Depois que a adrenalina, noradrenalina e o cortisol são liberados no processo, eles demoram a voltar aos seus níveis normais, tornando-se acumulativos à medida que passamos pela mesma experiência repetidas vezes ao dia.
Se o estresse for intenso ou crônico, os níveis podem permanecer elevados por horas ou até dias. Então, basta um dia assistindo aos “Datenas” da vida – ele mesmo e seus similares, que agora viraram moda – para que seu dia se torne um pouco mais estressante.
Com o tempo, quanto mais nos alimentamos disso, mais acreditamos que a humanidade, em sua maior parte, é má e sem salvação. O que é uma enorme mentira. Coisas ruins acontecem no mundo desde que o mundo é mundo. Guerras sempre existiram. Até muito pouco tempo atrás, crianças nem tinham importância – a coisa começou a mudar logo ali, no início do século XX com a Declaração de Genebra em 1924. Pessoas sempre foram mortas, muitas vezes por motivos injustos ou mesmo sem motivos.
O que quero dizer, em suma, é: o que você ingere necessariamente implica para onde está sua atenção. Se eu bebo, olho para o copo. Se eu como, olho para o prato. Necessariamente, percepção e alimentação estão intimamente ligadas.
Porém, refiro-me ao alimento da mente! Com o que eu preencho minha psique? São coisas que me farão bem e ao meu próximo ou me deixarei ser contaminado por aqueles que provocam loucuras? – Essas no sentido de ações irracionais.
Então, cuidado com o que você “come”. Cuidado para onde está/estão desviando sua atenção. Você deve ser dono de si e, se em algum momento lhe tirarem esse poder, acorde e “pegue as rédeas” novamente o mais rápido possível. O mundo é belo, sim, mesmo com seus defeitos. Há! E sempre haverá, pessoas trabalhando para que a dor do próximo seja amparada. Foque nesses, seja um desses! Deixe os tolos com suas tolices.
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 02/02/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung