problemas com excesso de cuidado? sim eles existem e são complicados!
Pessoas que foram negligenciadas no passado no processo de cuidado e amparo quase sempre se tornam exímias cuidadoras. Esse é um movimento chamado de compensação pela psicologia.
Lembra de quando você empinava uma pipa e ela ficava inclinada para um lado? O que a gente fazia? Colocava uma fitinha de rabiola para compensar a falta de peso naquele lado específico. Ficava meio esquisito, mas a pipa voava!
É mais ou menos assim que os processos de compensação funcionam: quando falta peso (representatividade) em alguma questão essencial, surge um “pedaço de rabiola” para equilibrar.
Tá bom, Bazzan, mas todo mundo que é “bom” cuidador teve que sofrer algum trauma para se tornar um? Não, óbvio que não! Existem bons cuidadores que aprenderam, sentiram, observaram e avaliaram (veja mais sobre o processo de modelagem de Albert Bandura). Eles se tornaram bons cuidadores não pelo peso da compensação, mas porque entenderam que aquilo era importante e valioso.
Esses não têm uma “rabiola” para compensar esse vazio específico. Provavelmente terão outras – todos têm –, mas, nessa questão, são prudentes quanto aos excessos e às faltas, sempre “temperando” o cuidado com frases como:
“Vamos voar?”
“Estou aqui se acontecer algo complicado, mas você precisa tentar sozinho.”
“Vamos! Tenho certeza de que você consegue!”
Assim, criam o que chamamos de autoeficácia – mais uma do tal Albert aí de cima.
Autoeficácia é essencial para que uma pessoa confie em si mesma e no grupo em que convive. Ela é gerada pelo trabalho de cuidadores, como pais, professores e até amigos.
Quando a autoeficácia é baixa, há uma grande probabilidade de que essa pessoa tenha sido protegida excessivamente da vida. Já encontrei adultos com mais de 40 anos, casados e com filhos, em desespero porque a mãe ia morrer e eles não tinham ideia de como seguir a vida sem ela.
Claro que há a dor do luto, sem dúvida! Mas a principal preocupação era:
“O que eu faço agora? Estou sozinho! Não consigo decidir sobre nada, era ela que me ajudava em tudo.”
Percebe? Estamos falando sobre as consequências do cuidado excessivo. Neste artigo, foquei na relação entre pais e filhos, mas essa compensação acontece em muitas outras situações.
Pais que não foram cuidados de forma saudável aplicam a compensação e, muitas vezes sem perceber, acabam “paralisando” a vida dos filhos, acreditando que estão poupando-os do sofrimento, dos traumas e das dificuldades.
Bem-vindo à vida! A vida é trauma. Durma bem com isso. E é necessário que existam:
- Frustrações na infância que ensinam limites e autocontrole.
- Perdas que levam à valorização do que realmente importa.
- Erros que ensinam a importância da responsabilidade.
A vida, de fato, é cheia de momentos difíceis. O sofrimento faz parte da experiência humana e, muitas vezes, é inevitável. A questão não é evitá-lo a todo custo, mas aprender a lidar com ele de forma que traga aprendizado e evolução.
Se você também tem uma “rabiola” de compensação, fique de olho no cuidado excessivo. Você não estará aqui para sempre, mas é provável que seus filhos fiquem um pouco mais. Torne-os fortes e resilientes.
E descanse em paz quando sua hora chegar, com a certeza de que fez o seu melhor, e de que seus filhos estão prontos, para viver uma vida dura, plena e linda!
Um abraço, fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 04/02/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung