um pouco sobre superstições
Um Encontro Inusitado com o Azar
Logo de manhã, procuro um lugar para estacionar o possante. Depois de um pouco de trabalho, encontro e deixo embaixo de uma pequena sombra. Saio e começo a caminhar pela calçada. De repente, por milésimos de segundo, percebo que o assoalho, a calçada, está mais pastosa do que sólida. Tiro automaticamente o peso do pé desconfiado e, com o outro, salto para frente.
Olho para trás e percebo o ocorrido. Não sou expert em fezes, mas se estivéssemos na Ásia ou na África, ficaria desconfiado de que aquilo era obra de um elefante. Pense num monte de merda! Bom, era exatamente isso que se punha diante dos meus olhos.
Faxina de Emergência
Fecho os olhos no desespero de ter que me dar conta do “prejuízo”. Olho para baixo e percebo que o tênis estava totalmente possuído por aquela massa fecal. Imediatamente, solto dois ou três palavrões. A parte boa é que não havia ninguém por perto. Como um saci, começo a pular em direção a uma pequenina poça d’água. Esfrego o fétido pé no chão com a intenção de lavar o melhor possível.
Olho para os cantos procurando algum tipo de grama, mato, terra, areia — qualquer coisa com a intenção de dar uma raspada naquela meleca. Só encontro aquelas graminhas que nascem nas calçadas portuguesas. Fui a cada uma, de poça em poça, fazendo o melhor que podia antes de entrar em serviço.
Ao chegar, vou ao banheiro e, com algumas toalhas de papel, termino de realizar a “faxina” no pisante. Lavo as mãos e vida que segue.
Superstição ou Autoengano?
Não eram nem 08h quando tudo isso aconteceu. Com certeza, foi um péssimo começo de dia, mas no final tudo correu relativamente bem.
A superstição diz que pisar em fezes de cachorro é sinal de sorte ou dinheiro. Talvez isso tenha sido criado justamente para diminuir a frustração que é. Sorte? Merda é uma coisa repulsiva, que a maioria de nós quer distância. Então, me parece muito mais azar do que qualquer outra coisa.
Dinheiro? Só se for para gastar, comprando outro tênis depois do estrago — principalmente se for daqueles de pano, com telinhas. Se pisar meio de lado, entra merda até na meia.
O Medo por Trás dos Rituais
Superstição é uma coisa interessante, como se, de alguma forma, pudéssemos controlar o que nos acontece cumprindo certos rituais. Isso é muito comum em pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), o que não se aplica à grande maioria de nós. TOC realmente diagnosticado é algo sério e precisa de atenção. Já superstição, para mim, é apenas algo cultural e curioso.
Todos nós já vimos jogadores de futebol entrando em campo: colocam a mão no gramado, elevam as mãos para o céu, fazem uma reza. Por quê? Porque acreditam que, se não fizerem isso, algo ruim vai acontecer no jogo. E o curioso é que sempre acontece algo ruim! O cara se machuca, perde gol, às vezes até marca contra. No jogo seguinte? Repetem o mesmo ritual. Interessante…
Merdas Acontecem: E Agora?
Há inúmeros outros exemplos de rituais dos quais nos apropriamos e nos tornamos “escravos”. Por quê? Por medo. Medo de que algo ruim possa acontecer.
Quer uma frase motivadora? Essa foi tirada do filme Forrest Gump, estrelado por Tom Hanks:
“Merdas acontecem.”
Ele diz isso em uma cena após se sujar completamente com lama e limpar o rosto com uma camiseta.
No fim é bem isso: algo sempre dá errado. E sempre dará. A questão é: o que fazemos com isso? Como devemos nos comportar?
A Lição Final: Desvios e Caminhos
Tenho aprendido a observar, absorver, me indignar, às vezes até xingar. Mas já sou adulto, e não acredito que o universo esteja conspirando contra mim.
Tive essa certeza ao voltar ao carro no final do dia: aquele exuberante monte de merda havia se transformado numa fina massa de mini pizza, indicando que passaram mais pessoas pelo mesmo “problema”. Eu ainda fui beneficiado: havia um pouco de água limpa, algumas ervas daninhas e um banheiro por perto para me limpar adequadamente.
E os outros? Não sabemos. Nunca saberemos. Mas de duas coisas tenho certeza:
- O cachorro não estava bem.
- Merdas acontecem.
Se identificar antes de pisar, desvie. Mas se não der, limpe-se e continue caminhando.
Um abraço e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 07/04/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung