Culpa de quem?

reflexão sobre acontecimentos e culpa

Em um cruzamento, logo pela manhã, o sol ofuscava a visão de quem trafegava pela avenida em direção ao centro da cidade. A 90 graus dessa via, havia uma rua que a cruzava sem esse mesmo problema: os motoristas ali recebiam o sol lateralmente, e não de frente, o que facilitava bastante a visibilidade.

Nessa rua havia um semáforo, que naquele momento estava vermelho. Já na avenida, o sinal estava verde, embora os motoristas tivessem dificuldade para vê-lo por causa do sol, permitindo, ainda assim, a continuidade do fluxo.

A Colisão

Você provavelmente já imagina o que aconteceu em seguida: o semáforo da avenida ficou vermelho, mas o brilho do sol impediu que os condutores percebessem isso com clareza. Simultaneamente, o sinal da rua cruzada ficou verde, autorizando a inversão do fluxo. Os motoristas que aguardavam nessa rua partiram assim que o semáforo abriu. No entanto, um carro que seguia pela avenida não percebeu que o sinal havia fechado e continuou avançando.

O resultado: uma colisão envolvendo três veículos.

E Agora, de Quem é a Culpa?

Felizmente, ninguém se feriu gravemente, apenas danos materiais foram registrados. Mas a pergunta que permanece é: de quem é a culpa?

Imagino que a grande maioria, de imediato, dirá que a culpa é de quem avançou o sinal vermelho — o que não está errado. Já a pessoa que avançou o sinal vermelho dirá: a culpa é do sol, porque me impediu de visualizar corretamente o sinal. Ou então, dirá que a culpa é de quem colocou o semáforo justamente naquela posição, afinal, poderia ter se preocupado em reposicioná-lo de maneira que, nesse período do ano, o sol não fosse um problema.

Outros poderiam dizer que o verdadeiro culpado foi quem estava no fluxo do sinal verde, já que tinha uma visão melhor do que os que trafegavam na avenida. Ou ainda, culpar a idade avançada, ou o sexo de algum dos motoristas envolvidos.

Justiça, Moral e Ética

As leis servem para haver um ponto central único, lógico e sem ambiguidade — e então aplicar a “justiça” de modo “justo”. Para convencer a todos de que o justo é o certo, já que se aplica a todos, dando a impressão de que somos todos iguais perante ela.

Não ignoro a necessidade das leis, não acredito que uma sociedade sem leis seja melhor. Mas pra mim é muito claro que: “o que é certo às vezes não é justo, e a justiça por vezes não é certa.” Essa é a luta (ou diferença) importante entre moral e ética.

Moralidade são as leis. Ética é o que você faz quando está sozinho! Você pode ser um “lindo moralista”, mas quando está sozinho sua ética fede mais do que “furico de gambá”.

Na moralidade, há uma falsa presunção de que o outro está sendo visto com todo cuidado. Mas, basta aplicarmos as regras jurídicas, e tudo se vai. Na ética, quando a temos, o outro é visto com mais cuidado, tendo como principal objetivo a promoção da vida, não sua destruição.

E Se Fosse Diferente?

Eu poderia criar inúmeras histórias aqui para mostrar essa diferença e provar que a coisa não é tão simples assim. A culpa de avançar o sinal fica, no mínimo, “esquisita” e quase impossível de se manter — obviamente, se você for uma pessoa ética.

Imagine a mesma cena anterior, que de fato foi um acontecimento real, mas agora com uma explicação fictícia de possibilidades:

A pessoa que avançou o sinal não conseguia vê-lo por conta do sol. Sua mãe estava passando mal e pediu sua ajuda minutos atrás. A mãe, com 85 anos, havia caído no chão e conseguiu ligar pra filha pedindo socorro. Ela, uma mulher de 66 anos — já idosa também — acabara de acordar de “sopetão”, se desespera e sai correndo pra socorrer a mãe.

Na rua oposta, um rapaz olha pro celular enquanto espera o semáforo abrir. Não percebe, mas já se passaram dois segundos. Se assusta com a buzina do carro de trás e então acelera rapidamente, sem notar a mulher que vinha em sentido contrário, desesperada. Outro carro também se envolve na colisão — esse estava distraído, observando uma linda mulher que passava pela calçada.

E Agora, Ética ou Justiça?

Em nome da ética, fica mais difícil sacrificar a pessoa que passou no sinal vermelho. Pelo menos deveria — caso essa fosse a história real. É? Acredito que não acertei em quase nada. Talvez houvesse um celular envolvido, isso é muito comum.

Mas o que gostaria de deixar claro aqui é:

“Na mesma medida que medirdes, sereis medidos.”

Então cuidado! Quando os louros da vitória vierem, aprenda a dividir. E quando as batalhas forem perdidas, cuide dos feridos. Assuma também a responsabilidade por não ser tão suficiente assim. Ninguém é. Ninguém será. Assuma sua parcela de culpa também.

Ao fazê-lo, você perceberá a tensão se dissipando mais facilmente, cuidará — mas será cuidado também. E garantidamente, as coisas se encaixarão.

Tenha ética. Trabalhe para haver vida, não somente justiça — ainda mais, a nossa justiça. Ela é cega por um bom motivo: não precisa lidar com o que não vê.

Culpa de quem? Culpa de todos! Se fôssemos mais éticos, a vida seria mais bela.

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 08/04/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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