Adolescências

uma visão clinica dos atendimentos psicoterápicos

Pode não parecer, mas também já fui um dia! Adolescente! Fase difícil, complicada tanto para quem está passando, quanto para quem tem que conviver com quem está passando. Temos também o termo “aborrecente” — a palavra nem existe na língua portuguesa, mas, para expressar melhor o sentimento, acabou sendo criada e, a meu ver, exemplifica muito bem a passagem por essa fase.

As emoções em montanha-russa

Estar perto, conviver com uma pessoinha dessas é realmente complicado. Em um momento, ela está saltitante de alegria, dois minutos depois, por conta de uma mensagem no celular, se põe a chorar, esbraveja e amaldiçoa o mundo e o universo porque ninguém “a entende”! Em outro, não quer falar com ninguém, mas cobra que não tem atenção dos pais ou amigos.

Dormem como se fossem ursos pela manhã, mas à noite ficam acordados como corujas, completamente sem sono, até que os pais ou responsáveis intervenham para desligar todo e qualquer aparelho eletrônico. Mal sabem eles que os pequenos ficam com o celular ligado embaixo do cobertor depois que os pais saem do quarto. Terríveis.

O desafio da obediência

Obedecer é um desafio! Os pais, descabelados, não conseguem mais identificar aquela criatura diante de seus olhos. Dois anos antes, era um doce de criança, obediente, não dava trabalho algum, mas agora? Agora chega “tocando o terror”, feliz e triste, elétrico e cansado ao mesmo tempo.

“— Vocês, adultos, que deem conta, eu não sei o que está acontecendo aqui…” Esse deve ser o sentimento muito comum entre eles todos.

Transformações rápidas e exigências desproporcionais

São mudanças enormes, biológica e psicologicamente falando. Perceba: se um adulto tem 30, 32, 34 anos, quase nada muda. A cobrança é a mesma. Ninguém diz: “— Olha, você já tem 34, não tem mais 30 anos…” Isso seria ridículo, e provavelmente o adulto riria se algo assim lhe fosse dito. Mas olha que interessante…

Um garoto ou uma garota com 10 anos é uma criança. Com 12, apenas dois anos depois, já é considerada adolescente. Às vezes, alguns pais tratam como um “quase adulto”: “— Você não é mais criança!” E os pequenos têm que lidar com esse “rito de passagem”, onde aparentemente já deveriam saber de muitas coisas, afinal, já têm 12 anos ou mais… Calma aí, né gente!

Autonomia se ensina com amor

Tudo bem, é necessário passar por essa fase. Incentivar a independência, a autogestão de tempo, a iniciativa, a proatividade. Sim, não tenho dúvidas de que isso é necessário e desejado. Mas precisamos entender que isso não vem instalado de fábrica, precisa ser ensinado com amor, paciência e compreensão — o que se dificulta pelas oscilações de humor dos pequenos.

O peso da repreensão

Ninguém gosta de ser repreendido o tempo todo:
“— Tá errado!”
“— Já não falei que não é assim?”
“— Pelo amor de Deus, você não é mais criança!”

Chega uma hora em que o saco de todos enche e a coisa explode. Então, a melhor maneira de entender a situação e melhorar o convívio é pensar:
“— Essa pessoinha ainda não sabe fazer o que deve ser feito. Preciso encontrar um meio de ensiná-la com amor e depois reconhecer seu esforço, mesmo que nesse primeiro momento a qualidade da execução não fique como desejei. Afinal, ninguém é tão bom assim na primeira vez que está fazendo algo.”

Adolescência é a hora da identidade

Esse é um momento muito importante para a formação dos filhos. É na adolescência que começarão a criar sua identidade, rejeitando muita coisa que é do pai e da mãe. Isso é absolutamente normal. Afinal, não estamos gerando clones, e sim uma versão completamente nova e única de ser humano.

Se você quer que seu filho se comporte de determinada maneira, a melhor forma é ser aquele comportamento.

Seja o espelho, não a moldura

O adolescente é uma verdadeira esponja à procura de pedaços de identidade para formar a sua. Por isso essa loucura: uma hora gosta de um estilo de música, depois muda para outro completamente diferente; uma hora se veste como gótico, outra vira rapper… O que ele está fazendo? Procurando identidades para se identificar.

Então, não parece óbvio que, se você deseja que seu filho tenha certo comportamento, você deve ser o espelho? Que ele te identifique como algo que deseja ser?

Não será, obviamente, uma cópia sua — nem é bom que seja. Do contrário, viverá preso a você sem saber que direção tomar. E isso não devemos desejar nunca.

Mas como há em nós coisas boas e ruins, é natural que o que há de bom — respeito, educação, honestidade, responsabilidade — você deseje passar adiante. Então, seja algo atraente, demonstre que isso é importante e, principalmente, faça-o sentir que isso é realmente importante.

Sentimentos são memórias vivas

Sentimentos têm um poder absurdo na vida da gente, tanto para o bem quanto para o mal. Há um ditado que ouvi e nunca mais esqueci:

“Eu posso esquecer do que você me falou, mas nunca vou esquecer do que você me fez sentir!”

Memória de longo prazo é gravada com base na potência do sentimento gerado. Quanto maior o sentimento envolvido, mais gravada ela fica.

A melhor forma de ensinar é com o exemplo

Há muito o que dizer sobre adolescência. É um tema que me atrai muito — adoro trabalhar com eles. Mas, nesse texto de reflexão, quero deixar marcado:
se eu tivesse apenas uma escolha sobre como tratar com meu adolescente, escolheria a comunicação através do exemplo.

Essa é a dica que deixo aqui para os pais. Isso é muito forte e impactante. Palavras têm seu peso, mas ações… bom, ações valem mais que mil palavras.

Tendo essa carta na manga, você conseguirá melhorar muito a comunicação com seus filhos. Respeite as dificuldades. Ensine, corrija, oriente — mas seja gentil, faça com amor. Tenho certeza de que, dessa forma, a coisa entra no eixo.

Abraços e fiquem bem.

Rodrigo Bazzan – 09/04/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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