Tentei mas não deu! Ainda!

uma reflexão com relação as tentativas

Tem uma criança na sala, ela está gatinhando. Já faz isso com maestria, como se fosse um “carrinho” sem rodas, circundando os móveis e se locomovendo de forma totalmente independente. Os pais, de cabelo em pé, agora percebem que os perigos aumentam à medida que ela se torna mais e mais independente.

Observação e Imitabilidade

A criança observa que os adultos não gatinham; eles ficam eretos em cima de suas pernas, com os braços livres, conseguindo alcançar lugares mais altos e desbravar muito mais o ambiente. A possibilidade de muitas descobertas, a curiosidade e a imitação fazem a criança começar a tentar se igualar.

Perceba que, se todos nós apenas gatinhássemos, não haveria distinção, e seria pouco provável que a criança tentasse algo diferente.

O Poder da Observação e da Tentativa

A tentativa sempre vem de uma observação: observa-se, avalia-se e, então, dependendo do resultado, o processo de replicação pode ser desejado. A partir daí, começam as tentativas para conseguir um resultado, se não igual ou melhor de imediato, pelo menos o mais próximo possível dele.

A criança começa a se agarrar nos móveis e recebe, com isso, muito incentivo através dos:
— “Isso aí! Parabéns!!!”
— “Olha que coisa mais linda da mamãe!”

Ela percebe que está fazendo algo bom, é retribuída na maioria das vezes com amor e carinho. Ainda que essa retribuição não venha, desde que não seja reprimida, é bem provável que, por conta da replicação e observação do comportamento, a criança tente se pôr em pé.

Cair e Levantar: Um Ciclo Necessário

Tente! Isso mesmo: pôr-se em pé implica em tentativas — não uma, nem duas, mas várias delas. Cair e levantar será uma constância até o corpo do pequeno entender que precisa se equilibrar para isso.

Depois que conseguir se colocar em pé, mesmo que agarrando objetos ao seu redor, começará a se sentir mais confortável: etapa vencida! E então começará a observar os objetos de um novo ângulo: alguns estarão mais abaixo, outros no mesmo nível, e outros ainda bem acima.

O Desejo de Conquistar

O desejo de “conquistar” o ambiente aumenta e ela, que antes se arrastava pelo chão, começa as tentativas de se soltar dos objetos de apoio e estabilizar o corpo, equilibrando-se. Depois, iniciará as tentativas de “um pé após o outro”, com a intenção de locomoção. Não sem antes cair inúmeras vezes.

A Vida é Feita de Tentativas

Tentativas! A vida nos forçará a realizá-las desde o início. Algumas serão inegociáveis para corpos sem nenhuma limitação, como o andar; mas há outras, como o desmame ou o controle dos esfíncteres durante o sono. Todas as “vitórias” vieram de tentativas.

O ser humano paga o preço pela sua complexidade. Quando nascemos, muito pouco é automático, se compararmos a outros animais. O bezerro nasce, logo se põe em pé e procura a mãe para se alimentar. Eles já vêm “programados”. Nos outros animais, a essência precede a existência; no caso dos humanos, é preciso existir para então vermos “no que vai dar”. Já uma vaca será essencialmente uma vaca, sem quase nenhuma distinção entre elas.

Tentativa, Frustração e Conquista

Dessa forma, se faz necessário ao ser humano: tentar, frustrar-se e depois conquistar — e não tem como inverter essa ordem! Não há conquista sem tentativa, e não há tentativa sem frustração. A gente não nasce sabendo, como bem diz o ditado popular.

Se você tiver medo de tentar — não importa o motivo, porque cada um de nós terá inúmeros e diferentes — não haverá conquistas! Todo sucesso (e chamo aqui de sucesso aquele caminho que leva à resolução de um desejo, seja qual for) dependerá de pelo menos UMA tentativa. Afinal, quem acerta “de primeira” precisou tentar pelo menos uma vez.

Então, se você tem tentado mas ainda não conseguiu, não se desespere! O processo amadurece em meio às tentativas. Lembre-se de que, antes de andar, foi preciso gatinhar, agarrar-se às coisas, entender o equilíbrio, pôr-se em pé sem ajuda e cair inúmeras vezes até conquistar a autonomia que hoje você considera trivial.

A gente esquece, mas houve um trabalho e uma persistência enormes para que isso acontecesse.

Então tente, persista no seu desejo — seja ele qual for — e, quando conseguir, lembre-se com orgulho de tudo o que superou para concretizá-lo.

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 28/04/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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