Se isso não lhe serve mais…

uma reflexão sobre o apego desnecessário e improdutivo.

Roupas e mais roupas, sapatos aos montes que ou não servem mais ou não atraem mais a atenção de outrora.
Diria, de maneira um tanto “preconceituosa”, que isso acontece muito no sexo feminino, tendo em vista o cuidado especial com a autoimagem. Puxando sardinha para o meu lado, ocorre um pouco menos no sexo masculino.
Não direi nada sobre cuecas e meias rasgadas que ainda habitam as três gavetas disponíveis aos homens para se organizarem, ou sobre aquele sapato/tênis colado com superbonder que “ainda dá pra bater”.

O acúmulo de coisas

Quem é “das antigas” sempre tem aquele potinho com milhões de pregos, parafusos, porcas e arruelas que, em um momento ou outro, salvarão o dia!
— “Quem guarda tem!”
— “Amor, o que você está fazendo? Por que está desmontando esse micro-ondas quebrado?”
Respondem:
— “Tem um monte de coisa útil aqui dentro, posso usar esse motorzinho em alguma coisa…”

Hoje um pouco menos, mas antigamente isso era bem comum.
Ainda guardo alguns resquícios de meu pai com relação à acumulação de coisas “úteis”. Já levei várias broncas e hoje estou melhor desse “vício”.
Umas duas vezes por ano “baixa o santo” da arrumação, e saem alguns sacos de coisas inúteis em direção ao ecoponto para descarte. A esposa agradece!

O sentimento de posse

Mas somos assim, ambos os sexos. Por quê? Porque, primeiro, não tem nada a ver com o sexo: adoramos ter o sentimento de posse.
Lá no fundo estamos dizendo:
— “Isso é meu!”

Temos “dó” de doar, de nos desfazer — e às vezes, dependendo do caso, até de jogar fora — algo que já não é útil para ninguém.
A posse remete a poder. E quanto mais eu possuo, mais “poder” eu tenho.
Poder não no sentido ruim, político ou maléfico, mas no sentido de possibilidade de realizar.
Veja: se eu tenho muitos parafusos, é bem mais provável que eu consiga resolver um problema que precise de parafusos do que alguém que não tem nenhum.
Então, se eu tenho mais, eu posso mais. Faz sentido?

O apego e a dificuldade de compartilhar

Outra possibilidade é o apego!
Às vezes, temos dificuldade em compartilhar o que é nosso, por inúmeros motivos.
Você já se deparou com a seguinte cena?
Duas crianças brincando: uma delas tem um aviãozinho, empresta para a outra criança, e essa, por sua vez, faz manobras diferentes e muito mais legais com o mesmo brinquedo.
Então a primeira criança chora porque quer o brinquedo de volta. Não consegue lidar com:
— “O brinquedo é meu! Não admito que ele brinque melhor do que eu com o meu próprio brinquedo!”

É como entregar uma roupa a outra mulher e vê-la mais sensual do que quem originalmente era dona da peça.
Ou vender aquele carro velho e vê-lo, depois, com o comprador, inegavelmente mais bem cuidado do que estava com você.
Aparece então um sentimento de frustração, de perda. Afinal, o objeto era seu, e agora alguém está se “dando melhor” com ele.

Acontece muito com músicos: quando sua guitarra está na mão de outro e soa muito melhor.
Tamanha é a frustração que alguns realmente não emprestam seus instrumentos, no fundo com medo de serem “descobertos” — ou melhor, descobrirem que não são tão bons assim.
Vi muitos fazerem isso!

Desapegar é preciso

Se não lhe serve mais… Ora, se não lhe serve mais e ainda é útil, passe para frente. Não seja mesquinho: doe!
Já vi absurdos, como alguém vendendo uma bicicleta infantil daquelas de rodinhas por R$20,00.
Será que o sorriso de uma criança que não teria condições de ter uma bicicleta não vale mais do que isso?

Agora, se não presta, jogue fora!
Tenho vontade de dar uma boa lição naquele pessoal que, diante de uma campanha de arrecadação, entrega roupas furadas, rasgadas, sapatos descolados e brinquedos quebrados.
Se você faz isso, tenha em mente: você é mesquinho, egoísta e precisa melhorar muito como ser humano.

A vida feliz não é de acumulação, mas de doação, de amor e compaixão.

Não se engane: pode até parecer engraçado ter um guarda-roupas enorme repleto de sapatos dos quais ninguém usa 50%, ou ter cuecas rasgadas e meias furadas na gaveta, ou ainda não conseguir se desfazer daquele bilhetinho que ganhou há 30 anos de alguém que ainda está vivo.
Isso é apego: é um grito de “Isso é meu!”.

O passado já se foi. Não dá para pegá-lo novamente.
Se essa pessoa ainda existe, esqueça o bilhete e aproveite-a enquanto ela vive.
Se há muitos bens não usados, compartilhe.
E se há cuecas rasgadas, jogue-as fora, pelo amor de Deus!
Tenha amor próprio e livre-se dessa falsa humildade — isso também é apego.

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 28/04/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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