Sextou e o Resto que Lute!

uma reflexão sobre o porque desejamos tanto a sexta-feira

Lembro quando era mais jovem e consumia muito a TV aberta brasileira. Domingo já era um dia meio melancólico, mas o ápice era quando tocava a música do Fantástico, simbolizando o final do final de semana e, em breve, ao amanhecer, o início de uma nova. Diante disso, novamente a espera pela tão sonhada sexta-feira se iniciava. Afinal, ela, toda charmosa, era um indicativo de que o descanso estava próximo novamente! #sextou!

Afastamento da TV aberta e a permanência da espera

Hoje não assisto TV aberta há muito tempo. Os motivos seriam um bom conteúdo para algumas dezenas de textos, mas não vou tratar de nenhum deles aqui. Atualmente ainda espero ansioso pela sexta-feira, assim como milhões — senão talvez bilhões — de pessoas. Afinal, não sei se você já percebeu, mas tem sexta-feira no mundo todo.

Hoje em dia o domingo não me assusta tanto. Tenho menos ansiedade em iniciar uma nova semana. A sexta-feira continua sendo esperada, mas não como o único momento de alegria e felicidade. Momentos como o “happy hour”, onde extravasamos a tensão acumulada, são importantes e desejados — mas não podemos, não devemos, nos limitar a viver bem e felizes apenas entre a sexta-feira após o expediente e o domingo de manhã.

Viver plenamente é um compromisso diário

A vida precisa ser vivida de forma mais intensa, responsável e plena! Mas como podemos fazer isso?

Deixe de entregar sua vida e felicidade nas mãos de outrem. É preciso trabalhar para se manter e realizar seus desejos, mas me parece muito pouco “ser feliz”, “ter paz” e “alegria” apenas dois dias por semana. Para mim, essa conta não fecha.

Se algo tem roubado sua paz ao ponto de você ficar angustiado no domingo à noite, pare! Pense em uma saída para mudar essa situação. É fato que teremos tempos difíceis, momentos tristes — mas eles de forma alguma podem ser a maioria. Como tudo na vida, é preciso que haja um certo equilíbrio. Se você tem passado por momentos assim há algum tempo, de ansiedade e tristeza, esperando a sexta-feira como sua redentora, está na hora de reavaliar a situação com seriedade e compaixão por si mesmo.

Alegria e presença no agora

Sempre estaremos esperando por momentos em que retomaremos o controle, em que seremos nós mesmos, em que a vida parece estar em outra vibração. Mas essa espera deve ser com alegria — não com desespero, angústia ou ansiedade. Caso contrário, até esses momentos não serão tão bem aproveitados como deveriam. Normalmente, ainda ficamos “ligados” aos problemas da semana, usando esse intervalo apenas como uma folga para então o martírio se reiniciar na segunda-feira.

Tenho cultivado algo que tem me ajudado bastante com relação aos sentimentos ruins quando eles chegam. No final do dia, faço um balanço sobre o que senti e sobre como, se possível, evitar que tal situação aconteça novamente. Obviamente, algumas coisas estão fora do nosso controle. Para essas, após uma análise certeira e minuciosa, percebo que não havia o que fazer — então sigo adiante, sem pensar mais, torcendo para que não aconteçam novamente. Coisas aleatórias e sem controle.

Agir exige esforço, mas vale a pena

Mas algumas situações estão tão próximas quanto a possibilidade de coçar os olhos, e ligo o sinal de alerta para não precisar passar por elas novamente. Não digo que tem sido fácil, pois o movimento de “troca de direção”, de “fazer algo novo”, dá trabalho, cansa, exige um esforço em uma situação que na maioria das vezes já nos desgastou bastante. Mas ou é isso, ou temos que nos contentar com o fato de que nada irá mudar.

Não é raro que às vezes nos neguemos a enxergar o óbvio — por medo ou por um sentimento infantil de que alguém virá nos salvar, assim como faziam nossos pais. É bem comum esse tipo de regressão a um estado onde havia segurança e alguém resolvia tudo, e nós apenas colhíamos os frutos. Mas esse tempo acabou. Teve que acabar.

Viva além do “sextou”

Então, se você tem esperado desesperadamente a sexta-feira, saiba que de sete dias, talvez você esteja vivendo para si apenas um ou dois — o que é muito pouco. A vida é muito cara para ser desperdiçada com medo, angústia e ansiedade.

Viva a vida. Viva a sexta-feira — mas não somente ela!

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 09/05/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

Botões Alinhados