uma reflexão, quero? posso? devo?
Tem dias em que a gente acorda com uma vontade danada de jogar tudo pro alto, dar aquele belo “chute no balde” à lá Roberto Carlos, jogador da seleção brasileira de futebol. Mandar aquela mensagem atravessada, dizer umas verdades guardadas há tempos ou simplesmente largar tudo e sumir por uns dias. Tem até um lema por aí hoje em dia: “— Ô vontade de pegar umas 3 cuecas, 2 shorts e 5 camisas e cair no mundo.”
A fantasia é boa, ajuda a extravasar um pouco. A gente até ri imaginando como aquilo aconteceria e quais seriam os desdobramentos. Mas vontade, meu amigo, minha amiga, a gente tem de monte. Nem toda vontade é bússola. Às vezes, é só tempestade. O desejo pode vir com tudo, mas o estado de paixão pela realização nem sempre sai como deveria. Diria que, na maioria das vezes, é a gente mesmo que acaba se lascando.
Na psicanálise, a gente aprende que o desejo mora fundo. Não é só aquilo que aparece na superfície, tipo “quero um chocolate agora” ou “quero largar meu emprego e virar monge lá no Tibete”. O desejo tem raízes que se entrelaçam com nossa história, com nossos traumas, com nossas faltas. E olha que falta não falta, né? Paciência! Essa nos falta a cada dia mais. E não só a sua, ou a minha, mas de todo mundo. O mundo se tornou emergente, urgente. O tempo urge, e os 30 segundos do micro-ondas já não são mais suportáveis ou impressionantes como na primeira vez que utilizamos.
Esse é o “quero”! E o queremos sem medida a cada dia mais — e o mais rápido possível.
Entre o impulso e a ação
O “posso?” vem logo depois. A gente se pergunta se tem espaço, se tem autorização interna, se está livre para fazer aquilo que o desejo grita. Se tem dinheiro suficiente. Bom, nesse caso, quase sempre a gente dá um jeito. Depois que inventaram o cartão de crédito, o “posso” ganhou muito poder. Ou pelo menos nos deu essa impressão. Às vezes é um: “Posso, mas não agora! Mas sem problema, a fatura é para os meses que vêm!” A gente parcela mesmo sem poder — e depois sai correndo atrás do prejuízo, sendo dominado pelo desejo, pela “necessidade imediata” de realização.
Pagamos um preço alto pelo “posso não podendo”. Lá na frente a fatura chega, e não raro, pessoas têm um cartão para poder pagar a dívida do outro — e tudo vira uma bola de neve, um pesadelo. Mas o ciclo não para, porque eu preciso “ser feliz”. O desejo bate à porta novamente e lá vamos nós, afundar-nos no buraco mais um pouquinho. Você sente que pode porque consegue realizar. Mas a que custo?
Mas a pergunta mais importante, e geralmente a mais esquecida, é: “devo?”
A ética do cuidado consigo
“Devo” é a pergunta principal. De gente madura, que já se lascou bastante e criou casca grossa. “Devo” tem a ver com liberdade — com a liberdade de não se fazer o que se deseja. Contraintuitivo, aparentemente. Mas sou livre quando, mesmo querendo, mesmo podendo, não o faço porque sei ponderar.
É aí que entra o tal do autocontrole. Esse sujeito silencioso que tenta equilibrar o impulso e a consequência. Ele é o freio que segura a mão antes do envio daquela mensagem no calor da raiva. Da compra supérflua e desnecessária. É o “espera um pouco”, o “respira antes”, o “vamos pensar nisso amanhã”.
Não é fácil, claro que não. Tem horas que tudo em nós pede por ação imediata. O corpo pulsa, a mente justifica e o coração bate em ritmo de guerra. O amigo do lado realiza o que você desejadamente queria, dando a impressão de que você também deveria. “Se ele pode, por que eu não?” Mas aí entra a consciência — não como prisão, mas como bússola verdadeira. Aquela que aponta para onde queremos ir a longo prazo, e não apenas para onde a emoção do momento quer nos arrastar.
Então o que fazer?
O “devo?” não é uma censura moralista. É uma pergunta de cuidado. Com o outro, sim — mas principalmente com a gente mesmo. Porque fazer tudo o que se quer, quando se quer, tem um custo. É coisa de criança. É imaturo. E geralmente esse custo chega depois, disfarçado de culpa, arrependimento ou relações quebradas.
A maturidade emocional passa por esse trio: querer, poder e dever. Nem sempre os três caminham juntos. Mas, quando a gente consegue escutar cada um com atenção e não atropela o processo, a gente erra menos. E, olha, isso já é um baita ganho.
Quer um conselho? Antes de qualquer decisão importante, se pergunte: “Quero? Posso? Devo?” — e escute, de verdade, suas respostas internas. A gente tem mais sabedoria dentro do que imagina.
Um abraço e fiquem bem.
Rodrigo Bazzan – 26/05/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung