uma reflexão sobre a necessidade de repensarmos a saude mental
Tem dias que eu paro, olho em volta e me pergunto se não sou eu quem está ficando maluco. Acredito que, em dado momento, você também tenha tido essa impressão. Porque o que era exceção, agora virou moda, e o que antes nos deixava em alerta, hoje a gente aplaude, segue no Instagram e ainda comenta “lindo demais!”. Tem de tudo e em todo lugar. A pauta, o politicamente correto é:
“– Nossa, deixa ele(a), a vida é dele(a), você é que é insensível e não compreende o todo!”
A loucura que aplaudimos
Estamos normalizando a loucura.
Não aquela loucura poética, do pessoal que às vezes “viaja na maionese”, que sonha alto e fora da caixinha, inventa mundos, ama demais ou dança no meio da sala só porque o café ficou bom. Não! Estou dando ênfase aqui à loucura disfarçada de comportamento aceitável. À infantilização das emoções. Ao endeusamento do exagero, do fugir da realidade, o que há muito tempo só era aceitável em pessoas com personalidade psicótica.
Parece que algumas pessoas, mesmo pertencendo à parcela dos neuróticos — o que, na psicologia, entendemos como mais de 90% da população — encontraram nesse tipo de comportamento um meio de não aceitar a realidade, um comportamento de fuga em relação ao medo das responsabilidades que a vida apresenta diante de nós, meros mortais.
A fragilização silenciosa das gerações
Na clínica, percebo muito claramente comportamentos discrepantes com a idade do paciente, quase que um:
“– Nossa! Isso não deveria estar aqui nesse momento da vida dessa pessoa! Já devíamos ter passado dessa fase”,
mas pasmem, isso tem sido mais corriqueiro do que parece. Estamos fragilizando nossas gerações. Tenho minhas dúvidas de que 21 anos seja mesmo uma idade para considerar alguém adulto nos dias atuais. Eu casei com 24, já tinha uma casa — ainda que parcelada — e um emprego estável. Não que eu seja parâmetro, mas na minha geração isso não era incomum.
Hoje, 21 anos de idade parecem não ser suficientes para uma maturidade mínima da grande maioria dos jovens, e isso me preocupa! Tenho percebido a normalização do “não precisa crescer ainda”, meio que de forma latente, inconsciente, escondida no desejo dos pais em ter os filhos para sempre consigo. Não sei se por medo de ficarem sozinhos, ou por acreditarem que eles, os filhos, iriam sofrer demais e não conseguiriam se manter.
E o que temos aos montes por aí? Adultos infantis! E estamos tratando isso como se fosse algo normal, mas de normal não tem nada!
Afetos transferidos e realidades ignoradas
A gente trata como normal adultos que se desconectaram da realidade, que transferem afeto para bonecas hiper-realistas — os tais bebês reborn — como se fossem filhos de verdade. Antes disso, vieram os pets, como forma de compensar a necessidade de cuidar, de ser mãe/pai, mas sem a responsabilidade com um filho humano de verdade. Animais não vão à escola, não gastam tanto, obedecem muito mais, e dão menos frustrações do que um filho tradicional.
Esse adulto, em certa medida, pode estar doente. Mas como normalizamos tudo hoje em dia, isso não precisa ser percebido. Aliás, quanto menos ele perceber, melhor. O que importa é que esteja produtivo, trabalhando e sem perguntas muito complexas. Deixem que compensem suas faltas em algum objeto. Ele pode ser vivo ou sem vida, não importa. Se ele continua trabalhando e “feliz”, deixe-o com sua fantasia.
Com todo respeito ao afeto e à dor de quem sofreu perdas, mas precisamos separar cuidado emocional de ilusão. Uma coisa é fazer um processo simbólico de luto. Outra é dar nome, comprar berço, levar pra passear e ainda exigir que os outros tratem o objeto como um bebê de verdade.
Quando o limite desaparece
E isso é só um exemplo.
Estamos nos acostumando com o desequilíbrio, e o mais perigoso: sem critério. Hoje é o boneco, amanhã é o “eu sou um gato” e depois é o “só falo se me chamarem de majestade”. E o pior: quem questiona, é tachado de insensível.
Perdemos o bom senso. E sem ele, qualquer ideia maluca pode virar bandeira, causa, movimento, estilo de vida.
Mas por que chegamos aqui? Porque dá trabalho crescer. A realidade é dura, o mundo cobra, a vida exige. É mais fácil regredir, brincar de faz de conta, viver num looping de desejos infantis onde ninguém me contraria e tudo que me desagrada é visto como “violência emocional”.
Só que viver é, sim, frustrante. É doído, é contraditório, exige renúncia. E é nesse terreno que se constrói a maturidade. Mas nem todo querer é saudável. Nem todo fazer é justo. Nem toda dor precisa ser evitada. Estamos criando um mundo onde dizer “não” virou agressão, onde contrariar virou violência e onde a fantasia tem mais espaço que a responsabilidade.
É preciso resgatar o bom senso. Aquele velho e sábio senso de limite, de saber que desejo não é autorização. Que sentir não é o mesmo que fazer. Pode parecer duro, mas a gente precisa voltar a chamar algumas coisas pelo nome certo. Loucura é loucura. Infantilização é infantilização. Carência não tratada não vira direito afetivo.
É hora de amadurecer. Nem tudo que emociona cura. Nem tudo que conforta liberta.
Um abraço e fiquem bem.
Rodrigo Bazzan – 27/05/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung