Está cansado ou no limite?

um reflexão sobre burnout

Tem dias que a gente acorda mais cansado do que foi dormir, parece que a noite foi-se em um piscar de olhos, isso na melhor das hipóteses; pior é quando não se consegue pregar o olho e, a cada hora que passa, o sentimento, a angústia do “– Já devia estar dormindo” aumenta. Aí, como em um ciclo desesperado, a insônia se instala.

O corpo está ali, mas a alma parece estar esgotada. E não é só o sono atrasado ou o estresse do trânsito. É uma sensação mais profunda, como se o simples fato de existir já estivesse puxando energia demais. E novamente você se põe em pé, calça os sapatos e segue rumo àquela rotina diária, sem se dar conta de que algo muito importante está acontecendo, e sendo ignorado completamente.

A gente aprendeu que tem que dar conta, que precisa “engolir o choro”, que tem que ser forte, produtivo e resolver tudo da melhor forma possível e no menor tempo. Que tem que sorrir mesmo quando por dentro está tudo desabando:
“– Bom dia, tudo bem?”
“– Sim! Tudo ótimo.”
O que, na maioria das vezes, é uma baita mentira. A gente adora as formalidades. A gente aprende que tem que seguir como se fosse normal viver no modo automático, sem pausa, sem respiro, sem cuidado.

A armadilha do “tô bem”

Voltando àquele diálogo acima, quando alguém pergunta como a gente está, a resposta já sai pronta: “tô bem”. Mas será? A gente engole o choro, segura a bronca, marca reunião em cima de reunião, cuida de todo mundo, menos de si, e literalmente vai se acostumando com o mal-estar, com a dor de cabeça constante, com o coração acelerado sem motivo, com a vontade de chorar do nada, com a paciência curta e o sono picado. E suportamos isso porque, intrinsicamente, não suportar é fracassar — e, obviamente, ninguém quer ser um fracassado.

Estamos adoecendo em silêncio. Disfarçando com café, com piada, com trabalho, com distração e com remédio — que é o mais preocupante e devastador. E o nome disso, talvez, seja esse tal de burnout — um esgotamento profundo, emocional, mental, físico. Mas vamos deixar os rótulos de lado: é aquela hora em que o corpo começa a gritar o que a alma passou tempo demais calando, seja lá o nome que inventaram para isso.

O preço de não parar

O problema é que a gente só percebe que passou do limite… quando já passou! Quando o prazer — que não tem nada a ver com trabalhar fazendo o que gosta — se transforma em peso. Até o que se costumava fazer e lhe trazia alegria, agora parece obrigação. Você já teve essa sensação desesperadora de ter que “aproveitar” o final de semana ao máximo e, no final, terminar mais cansado do que começou? Aí você se depara com o dilema:
“– Poxa vida, mas é final de semana, eu preciso fazer algo pra me animar um pouco.”
Mas nem isso ajuda mais.

Quando a segunda-feira dá um nó na garganta. Quando a gente só quer desaparecer por uns dias, semanas, meses — e quiçá anos — e não ser cobrado por nada. Parece um bom momento para reflexão e mudança de direção. O mundo, cruelmente, não para. Continua exigindo, empurrando, acelerando. E a gente segue, exausto e fingindo.

Costumo dizer que um carro pode atingir 200 km por hora, mas se ele ficar nessa velocidade a todo momento, uma hora o motor quebra. Bem, não somos carro, mas acredito que o exemplo se encaixa muito bem. Tem gente que até parece aquele fusca velho, amarrado com arame por todo lado, o motor fumaceando mais que trem a diesel, mas não para, não reflete, não consegue mudar a vida que está levando.
Medo! Talvez a palavra certa a ser pontuada aqui.

Mas vai chegar um momento em que o corpo trava. E, apesar dele ser seu — digo, o corpo —, acredite, ele tem vida própria quando sua finitude está ameaçada. E então começa a gritar aos quatro ventos, para que sua alma enxergue o que está fazendo. A mente desliga. O emocional quebra. O corpo padece com doenças, algumas irreversíveis. E você percebe que cuidar de si não é frescura — é necessidade. Que descansar não é luxo — é prevenção. Que dizer “não” é saudável. E que a vida, por mais corrida que seja, só vale a pena se a gente estiver inteiro nela.

Voltar para si

Não é sobre dar uma de louco e abandonar tudo. É sobre encontrar um jeito, uma maneira, uma estratégia nova de estar no mundo sem se perder de si mesmo. É sobre entender que você não precisa dar conta de tudo, o tempo todo — porque não conseguimos mesmo! Não tente. É uma furada total. Que sentir cansaço não te faz fraco. Que pedir ajuda não te faz incapaz. Que cuidar de si não é egoísmo — é responsabilidade.

Se você está no limite, pare. Respire. Reavalie. Descanse. Antes que o corpo te force a isso.

Um abraço e fiquem bem.

Rodrigo Bazzan – 28/05/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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