O(a) tal mentiroso(a)

um reflexão sobre os mentirosos

Todo mundo mente. Alguns mais, outros menos. Alguns por malícia, outros por desespero, outros ainda por amor, como dizia Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra. Inclusive essa de que mentir é sempre ruim.” E não venha me dizer que vossa senhoria é a detentora da mais perfeita verdade, com o: “— Eu não minto nunca!” Na verdade, a gente mente e nem percebe.

O problema é que tomamos a mentira como algo sempre ruim, como algo girando em torno de ou é zero ou é um, sem meio-termo. A vida é um pouquinho mais complicada que isso, há sempre muitas nuances que precisam ser analisadas. E haverão momentos que mentir será, inclusive, um ato de amor e misericórdia. Você pode discordar de mim, mas quer um exemplo?

Há uma criança com câncer terminal. Ela está em tratamento há alguns meses, mas não há mais nada a fazer. Os pais, cientes da situação, se preparam para o pior. Infelizmente, em pouco tempo a criança irá deixá-los. Deixam seus afazeres para estarem a maior parte do tempo com ela: brincam, contam histórias e cuidam dela em meio aos cuidados paliativos finais.

Um dia, a criança precisa ser internada novamente, mas dessa vez tudo indica que não retornará mais para casa. Os pais a levam para o hospital e montam um acampamento no quarto. A criança, na cama, pergunta quando irão embora novamente, queria brincar e deitar no sofá para assistir à televisão. O que você, sendo pai ou mãe dessa criança, responderia? Diria a ela a verdade? Que aqueles seriam seus últimos momentos? Se você escolheu dizer a verdade para ela, para proteger esse ego inflado, talvez seja melhor repensar o que você entende por amar, porque isso não é amor.

Que história foi essa?

Claro, a história é impactante! Propositalmente dessa forma para que entendamos que nem sempre a verdade precisa — ou deve — ser dita. Talvez você se gabe por falar sempre a verdade, doa a quem doer: “Eu sou sincero(a), falo na lata!” Isso não lhe faz uma pessoa especial ou boa, mas uma que não se importa com o sentimento alheio — só com você mesmo(a), típico de um egoísta.

Entenda também que a verdade sempre será o melhor caminho, mas não em todos os casos, não toda hora! Se as pessoas contassem toda a “verdade” sobre o que acham de nós, talvez não suportaríamos nem 10 minutos. As pessoas mentem, e nós também — inclusive para nós mesmos.

Mas por que mentimos?

A psicologia tem algumas respostas. Muita mentira é, na verdade, um mecanismo de defesa. Uma tentativa de se proteger da dor, da vergonha, da punição. Mentimos para evitar conflitos, para sermos aceitos, para proteger alguém que amamos. Mentimos por medo, por insegurança, por costume. E, sim, às vezes por puro mau-caratismo.

Mentiras de autopreservação

São as mais comuns. Começam bem cedo, quando somos crianças e dizemos que não fomos nós que quebramos o tal copo. Ou quando inventamos uma desculpa pro atraso. Quando dizemos: “Tudo bem!” em resposta a um “E aí, como você está?” mesmo estando destruído(a) por dentro. A mentira aparece como uma armadura. Nem sempre é planejada, às vezes é automática, quase instintiva. O cérebro entende o risco e ativa o modo “sobrevivência”.

Mentiras por conveniência

Essas são as mais perigosas. Quando se mente para manipular, para enganar de propósito, para se beneficiar em cima do outro. Aqui não tem defesa psíquica, tem má índole, falta de caráter. É quando o sujeito já entendeu como o jogo funciona, e decide trapacear. Às vezes até com um flerte com uma personalidade mais perversa — porque eles, os psicopatas, os políticos em sua maioria, os estelionatários, são exatamente assim.

Mentiras inconscientes

A psicologia também fala de outra forma de mentir: aquela que a pessoa acredita ser verdade. É quando o sujeito distorce a realidade pra ela caber melhor dentro da mente. Esquece o que não quer lembrar, adapta a história, reconstrói os fatos. Não é maldade, é autodefesa. Chamamos isso de racionalização, negação ou simplesmente delírio emocional. A verdade dói — e o inconsciente prefere não senti-la. Ele então cria seu próprio mundo e acredita piamente, mesmo não sendo, que aquilo que diz é a mais absoluta verdade.

Para esses casos, às vezes é preciso que um número significante de pessoas desmonte a farsa. A pessoa então tem seu castelo derrubado, sofre profundamente a perda da fantasia pelo confronto da realidade. Dependendo do caso, pode optar por deixar a fantasia e retomar a vida real. Outras vezes, pode criar um “apêndice” fantasioso ainda relacionado à antiga fantasia, remetendo a culpa aos outros pela verdade que apareceu, dizendo que foi perseguido e coisas do tipo.

Mentiras por amor

Nelson falava disso com ironia e poesia. Aquela mentira que alguém conta pra não magoar o outro. A mulher que elogia o jantar sem gosto. O homem que esconde o cansaço pra parecer presente. A mãe que inventa uma história bonita pro filho dormir tranquilo. Mentiras doces, como anestesia emocional. Se formos para o zero e um novamente, podemos dizer que não são boas — mas são humanas. Fazem parte da tentativa de proteger o contexto e repensar os resultados que a verdade trará nessa situação.

Espero que você tenha entendido muito bem sobre o que é mentir por amor. Você é adulto e é capaz de entender o que cada ação realizada produzirá — se trará “vida” ou “morte”.

Mas dá pra viver só na mentira?

Não. A longo prazo, a mentira cobra caro. Principalmente as que contamos pra nós mesmos. A pessoa vai se afastando da realidade, da própria essência, dos outros. A mente se fragmenta. E pior: uma mentira leva a outra. Vira um labirinto. Quando vê, já não sabe mais qual versão é a real.

Por isso, preste atenção nisso:
Se você mente muito, questione: está com medo de quê? Está tentando proteger quem? Está se escondendo de si mesmo?

A verdade, apesar de às vezes dura, liberta. A mentira, embora confortável, aprisiona. Não se trata de nunca mentir, isso é utopia. Mas sim de entender o motivo, de se responsabilizar, e de buscar a verdade como norte sempre que possível.
Mentir é do ser humano.
Mas viver na mentira… não vale a pena!

Um abraço e fique bem!

Rodrigo Bazzan – 20/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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