A dor da despedida

uma reflexão sobre a perda de alguém querido

Não há preparo suficiente no mundo para lidar com a partida de alguém que amamos, ainda mais quando é alguém jovem, cheio de vida, de planos, de sorrisos. A morte, quando vem cedo, parece um erro. Um absurdo. Como se algo tivesse sido arrancado antes da hora, como se o tempo tivesse nos traído. E a dor é profunda, aguda, quase irrespirável.

Procuram-se os motivos, na verdade as respostas, as possibilidades, em uma tentativa de entender e apaziguar a dor. Em vão! Mas somos assim: diante das coisas que não estão sob o nosso controle — e a vida, o viver, é uma delas — esperamos ardentemente por respostas. Não é clichê, é real: a vida é um sopro. Em uma morte “natural”, não passamos dos 100 anos, e tendo esse parâmetro como base, podemos dizer com toda certeza que, a cada 120 anos, toda a geração do mundo é substituída por uma “nova”.

Sendo isso natural, não nos causa dores maiores. Afinal, quando alguém morre com seus velhos anos de idade, sempre é possível ouvir: “Ah, ele(a) já estava velhinho(a), né? Coitado(a)… descansou!” O problema é quando alguém cheio de vida, jovem, acaba falecendo de forma inesperada. Isso choca. Machuca. Dói um absurdo. E quanto mais próximo, maior o lamento; quanto maior o amor, maior a dor. Triste. Uma fatalidade.

A verdade é que vivemos como se houvesse garantias. Como se todos tivessem um contrato invisível com a vida: “Vou viver até os 80”, “Meus filhos vão me enterrar”, “Tenho tempo ainda”. Mas não temos. Nada é garantido. E isso nos assusta. Só que, em vez de nos fazer viver com mais presença, mais entrega, mais verdade… a gente foge. Finge que a morte não existe, finge que aquela pessoa sempre estará ali.

E não importa o quão próximo ficamos, o quão intensamente amamos, sempre existirá aquela falta, aquele: “Mas eu podia ter feito mais…”, “Podia ter falado o quanto realmente o amava”. Essa é a nossa dor, a nossa falta, a culpa que retorna como se pudéssemos ser perfeitos em tudo, como se pudéssemos suprir tudo, controlar tudo, como se o mundo nos obedecesse em um estalar de dedos. Não funciona assim!

A dor da perda escancara uma verdade crua: estamos todos de passagem. E não sabemos até quando. Por isso, é preciso parar de viver acreditando que tudo pode ficar pra amanhã, principalmente no que tange às relações, aos relacionamentos. Que o abraço pode ser depois, que o “te amo” pode esperar. Viver com responsabilidade, sim, mas com intensidade. Com verdade. Com presença.

Amar com profundidade é o que nos resta. Porque não temos controle do tempo, mas temos escolha sobre o quanto nos entregamos. Dizer o que sente, estar por inteiro, cultivar vínculos sinceros. Isso sim dá sentido à vida. Não sabemos quanto tempo temos, mas deveríamos saber como queremos viver esse tempo.

E quando alguém parte antes da hora — absurdamente antes, na minha opinião — o que nos resta é o amor vivido com verdade. O que foi dito, sentido, partilhado. A dor da partida só é tão grande porque o amor era também. E isso não se apaga. Isso permanece.

Um abraço e fique bem, meu amigo!

Rodrigo Bazzan – 27/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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