Deixa a vida me levar!

uma reflexão sobre a necessidade de se responsabilizar sobre a vida que se vive

Vinte e oito anos e nenhuma pressa pra nada, ele adorava essa frase e não parava de repetir: “deixa a vida me levar”, esperando quase sempre o retorno do coro, que em sua maioria, retornava com um sorriso no rosto: “vida leva eu!” A tal música esboçava uma vida sem preocupação, com uma leve tendência à procrastinação. Afinal, quem não gostaria de viver uma vida “leve”, sem problemas ou compromissos “desagradáveis”. Adotou então esse estilo de vida, e nessa idade, adulto que era, parecia não querer crescer, quase um Peter Pan do pagode.

Dizia que odiava regras, horários e obrigações. Gostava da tal liberdade de fazer o que quisesse, quando quisesse e com quem quisesse. Nunca ficou muito tempo em um trabalho, nunca levou a sério um relacionamento, morava ainda com os pais e levava os dias com um sorriso debochado no rosto, dizendo que “quem se preocupa demais, envelhece cedo”, “problema tem toda hora, você resolve um e logo vem outro, deixa isso pra lá”, “depois a gente vê o que faz”. Frases típicas de quem, no fundo, tem problemas sérios em crescer.

Qual era a confusão?

No fundo, confundia liberdade com fuga. Dizia que queria ser livre, mas, na verdade, não queria assumir responsabilidades. Tinha medo de falhar, então nem tentava. Evitava compromissos, fugia de conversas sérias, e, quando a vida cobrava, culpava o mundo: “não é minha culpa se nada dá certo pra mim”, “É, meu filho, eu não tenho a sua sorte, não”, “A vida é dura comigo, por isso não fico me estressando, senão eu fico louco”.

Vivia reagindo, como se fosse passageiro de um barco à deriva. Se aparecia uma oportunidade, abraçava, mas bastava algum desconforto para largar a enxada e deixar de cultivar. Se surgia um problema, se escondia ou fazia piada. Era um adulto no corpo, mas emocionalmente, ainda um adolescente perdido e sem compromisso com nada, a não ser com seu próprio “bem-estar”.

“Eu tenho é que pensar em mim! Se eu não me amar, quem é que vai? Me diga?”, dizia aos presentes, quando indagado sobre comportamentos egoístas e por nunca pensar nas consequências de seus comportamentos.

A armadilha do “deixa a vida me levar”

Mas, com o tempo — e o tempo sempre cobra o seu preço —, a “vida que levava ele” começou a pesar. Os amigos se afastaram, os convites diminuíram, a grana sumiu. Veio a solidão, o tédio, a frustração. Porque, por mais que a “liberdade” seja linda no discurso, sem direção ela vira abandono de si. Como diria Kant: a verdadeira liberdade é conseguir fazer o que não se quer! Entenda isso como domínio próprio: eu quero tal coisa, mas pondero e, mesmo querendo muito, não faço!

Essa ideia de viver sem planos, sem metas, parece romântica e leve, mas, na prática, é autossabotagem. Pessoas que vivem assim estão, na maioria das vezes, evitando encarar a responsabilidade de construir algo real. Elas fogem de rotina, mas se aprisionam na estagnação. Quando você só reage ao que a vida te dá, você entrega o volante. Vira refém do acaso. E o acaso é cruel. Ele não garante sustento, não constrói vínculos, não te realiza. Viver é escolher, é planejar, é errar e ajustar. A liberdade real exige estrutura. Sem isso, é só caos disfarçado.

O que é viver com responsabilidade emocional e prática

Viver com responsabilidade não significa viver preso. Pelo contrário. Significa construir uma base que te permita crescer. Quando você assume sua vida, toma conta de si: seus erros, seus limites, seus desejos e começa a criar um caminho sólido, passando a viver com intenção, não por reação, superando as frustrações com base no aprendizado. Nem tudo dará certo, mas também nem tudo dará errado.

É fazer escolhas conscientes, assumir as consequências, cuidar do que é seu. É trabalhar por algo, manter vínculos, criar hábitos saudáveis, ter disciplina, é viver com propósito, sabendo de onde veio e para onde deseja chegar. Se chegou, não sei, mas pelo menos é pra lá que eu quero ir. Isso torna a vida palpável e viva.

E o tal garoto?

Um dia, acordou com 30 anos e nada nas mãos. Nem dinheiro, nem vínculos profundos, nem história construída. Só um vazio. Foi aí que percebeu que a vida não leva ninguém pra um bom lugar, principalmente quando a gente “deixa ela me levar”. Percebeu que, se ele não participasse indicando a direção, haveria uma grande chance de chegar a lugar nenhum.

Começou aos poucos. Procurou ajuda, arrumou um trabalho fixo, fez terapia, cortou desculpas. Descobriu que viver de verdade dá trabalho, mas também dá sentido. E, pela primeira vez, ao invés de se deixar levar, escolheu onde queria chegar.

E você? Está vivendo ou só sendo levado?

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 12/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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