uma reflexão sobre quando perdemos a criança interior
Em um dia você se percebe “gente”, começa a entender o mundo e como ele basicamente funciona. Tem pessoas, as pessoas fazem coisas, quando estou com fome elas me alimentam, eu posso brincar à vontade e dormir sem avisar quando estou cansado. Às vezes faço algo que não deveria, e alguém me chama a atenção.
Descubro que xixi e cocô têm lugar certo para fazer, preciso me preocupar com isso agora e não ir dormir com a bexiga cheia, caso contrário posso ser surpreendido e acordar todo gelado e molhado. Começo a ter vergonha de “errar” essas coisas e, com o tempo, me orgulho de contar quantos dias estou sem deixar escapar.
Começo a ir à escola, o tempo parece infinito. Olho para os adultos, e eles são enormes, bravos, estão sempre correndo daqui para ali. É o tal do trabalho, ouço dizerem. Mas o que me cobram é que eu vá a um lugar, fique sentado e aprenda a ler e a escrever. É um negócio meio esquisito, mas consigo com o tempo me adaptar e começo então a desenhar aqueles símbolos, agora com significado para mim.
O tempo passando e eu continue bem
Na maioria do tempo sou feliz, posso brincar à vontade, sou sincero(a), e todos riem quando em um momento ou outro falo algo que não deveria, mesmo sem eu ter a mínima ideia de que não podia dizer. Contam que as crianças são assim, sinceras. Minha mãe fica com vergonha algumas vezes, mas percebo que os outros adultos gostam que eu seja assim.
O tempo foi passando e eu brinquei cada vez menos. Veio o trabalho e não tive mais tempo para os meus amigos. Tive que deixar de ser sincero, aprendi que no mundo dos adultos isso pode ser muito perigoso. Daquela criança pouco restou, diria que muito pouco mesmo. Às vezes fico me perguntando onde ela estaria e como anda sua vida.
Em algum momento você já pensou sobre isso? Eu sim! Várias vezes. Tenho um filho e percebo em cada fase esse “deixar” de ser criança acontecendo. Isso é necessário até certo ponto. Afinal, o mundo dos adultos exige uma certa adaptação às regras sociais, um compromisso com o “se manter”. Afinal, não somos mais crianças. Mas será que esse tal pedacinho nosso deve se extinguir por completo? Estaria ela morta? Graças a Deus, não!
E onde ela está então?
A criança que você foi não morreu. Ela só se escondeu, ficou assustada com tudo isso e está aí dentro, em algum lugar, esperando ser resgatada.
Escondeu-se atrás das contas, das cobranças, dos traumas. Foi se calando cada vez mais enquanto você aprendia a ser “adulto”. O mundo te ensinou a desconfiar, a competir, a desconectar. Você foi aprendendo que chorar era feio, que sonhar era bobo, que sorrir sem motivo era coisa de gente sem juízo. E assim foi matando, aos poucos, o melhor de si. Ops! Matando não — rejeitando é a palavra mais adequada!
A infância não é só uma fase. É um modo de ser. Um estado de espírito. Quando somos crianças, confiamos mais, sentimos mais, acreditamos mais. Queremos voar, correr, inventar mundos. Somos curiosos, generosos, verdadeiros. Mas aí vem o mundo dos adultos com suas regras duras, suas frustrações acumuladas, suas verdades amargas. E nos ensina a endurecer também, e vamos colocando ela aos poucos de lado, até o ponto de não encontrá-la mais.
Mas ela está lá.
Quietinha. Esperando ser lembrada.
Ela aparece às vezes:
– Quando você se emociona com uma música que lembra sua infância.
– Quando se surpreende com algo bobo.
– Quando sente vontade de largar tudo e correr pra algum lugar sem destino.
– Quando sente saudade de quem você era.
Mas quando isso acontece sem eu dar conta?
Percebo isso principalmente quando você, adulto chato, se entrega a uma brincadeira infantil, ao lúdico! Pode ser com seus filhos, seus netos, ou até com uma criança aleatória que “caiu” na sua frente, e você faz graça para então chamar sua atenção. No fim das contas, você não percebe, mas está chamando-a para brincar. A sua criança, outrora escondida, sai de trás de algo e dá uma “olhadinha” para o mundo dos adultos, diante do encontro com um outro ser igualmente puro e genuíno.
Resgatar essa criança não é regredir. É se reconectar com o que há de mais verdadeiro em você. É lembrar que ainda é possível sonhar, sorrir, confiar, brincar, amar sem cálculo. É dar um tempo das máscaras, dos papéis, das obrigações sufocantes. É se permitir ser inteiro, mesmo em um mundo que cobra metades.
Você não precisa virar um adulto amargo só porque a vida te bateu.
Você pode ser um adulto consciente, responsável, mas ainda assim sensível.
Você pode pagar boletos e ainda assim rir até a barriga doer.
Você pode trabalhar duro e ainda ter tempo para deitar no chão com seus filhos.
Você pode ter responsabilidades sem sufocar sua alma.
Resgatar sua criança interior é resgatar sua humanidade.
É voltar a sonhar com mais coragem, a se relacionar com mais verdade, a viver com mais presença. Porque a vida não precisa ser só peso. Ela pode ter leveza também, e isso inclui brincadeiras! Quem sabe, nesse resgate, você volte a lembrar do que realmente importa.
A criança que você foi ainda vive em você.
Você só precisa ir lá e chamá-la de volta, para um: “Vamos brincar?”
Rodrigo Bazzan – 02/07/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung