Eu sou diferente! Você também!

um reflexão sobre como sentimos o mundo ao nosso redor

Começo essa reflexão com uma definição importante a ser lembrada: abstração. Ela pode ser entendida como algo que está apenas no campo do pensamento, uma imagem mental subjetiva e irreal. Trata-se de uma operação intelectual em que um objeto de reflexão é isolado de fatores comumente relacionados à realidade. Em resumo, é aquilo que você sabe que existe e é funcional, mas não é “palpável”.

O Chamado para o Trabalho Manual

De vez em quando, sinto a necessidade de realizar algum trabalho manual. Sendo o homem da casa, há sempre pendências a resolver relacionadas à manutenção. Elas são cobradas rotineiramente pela mulher da casa, minha digníssima esposa, mas nem sempre estou com ânimo para realizá-las. Em determinados dias, parece que “baixa o santo” da manutenção, e lá saio eu, trocando registros, arrumando lâmpadas queimadas, construindo algo de alvenaria aqui ou ali. Até que, eventualmente, o cansaço bate, o “santo” vai embora, e eu volto ao meu estado natural.

O Trabalho Abstrato: Tecnologia e Psicologia

Abstrato! Esse tem sido o meu trabalho por quase 20 anos, tanto na área de TI quanto na Psicologia. Em Sistemas de Informação, trabalho com programação de computadores — algo extremamente abstrato. Você pode achar que aquela telinha cheia de opções não parece abstrata, mas, “por trás”, há um mundo gigantesco criado para que ela funcione. Para a maioria das pessoas, esse universo é inacessível e invisível; o usuário abstrai toda essa complexidade, utilizando apenas as funcionalidades entregues pelo programa. Há absurdamente muito mais do que apenas a tela visível.

Na Psicologia, a abstração é ainda mais profunda. Se em TI já lidamos com conceitos intangíveis, a Psicologia é praticamente a mãe da abstração! Nada parece palpável. Não é possível segurar nas mãos a melhora de um paciente, suas ideias, seus medos, suas questões. Tudo é subjetivo. Além disso, há poucas regras fixas; cada indivíduo constrói sua própria abstração do mundo em que vive.

Quer um exemplo? Vamos fazer um teste: pense em um animal qualquer! Pensou? Qual a probabilidade de termos pensado no mesmo animal? Muito baixa, certo? Agora pense em um cachorro! Mesmo assim, será que estamos imaginando o mesmo cão? O meu é um Beagle, com três cores, a ponta do rabo branca e uma manchinha bege na ponta da pata. Mas o seu pode ser completamente diferente. Isso é o que acontece no mundo dos pensamentos: eles sempre serão distintos em alguma medida.

A Busca pelo Concreto

Apesar dessa imersão no abstrato, sinto, de tempos em tempos, a necessidade de algo concreto, algo palpável. Imagino que isso aconteça porque sou um cinestésico de mão cheia! Para ver, eu preciso tocar. Alguns de vocês vão entender isso. Valorizo muito o toque, o tato!

Talvez por isso, de vez em quando, sinta a necessidade de criar algo concreto — às vezes, até de concreto mesmo. Construir com as mãos, sentir o esforço do trabalho e, ao final, contemplar a obra finalizada. Sim, está ali: aquele banco de pedra, cimento, areia e tijolos que eu acabei de construir. E, todas as manhãs, ao passar por ele, lembro o que senti ao construí-lo. Palpável. Não abstrato!

O Sentir Movimenta a Vida

O sentir movimenta a vida, seja para o bem ou para o mal. A vida é sentir, é sentimento.

Existem pessoas visuais, que precisam olhar para sentir; auditivas, que possuem um refinado senso de percepção sonora, algumas até com o chamado “ouvido absoluto”; e há também os cinestésicos, como eu, que precisam do toque para se conectar com o mundo ao redor.

Como somos diferentes!

A Importância da Compreensão

Diante disso, vale a reflexão: julgue menos o “amiguinho”. Ele, com certeza, vê o mundo de uma forma muito diferente da sua — nem certa, nem errada, apenas diferente. Assim, precisamos encontrar maneiras de convívio produtivas e satisfatórias. Não precisa ser o céu, mas também não precisa ser o inferno.

Somos diferentes, sentimos, vivemos e mudamos, dependendo do caso e do propósito de cada um. No entanto, há algo inegociável no quesito convivência saudável: o respeito! Respeitar é entender que existem limites – os meus e os do outro. Talvez não pensemos da mesma forma, nem sempre cheguemos a um acordo, mas é fundamental respeitar os limites de ambas as partes.

Se o outro não conseguir fazer o mesmo, respeite isso também. Mantenha a calma e siga adiante! Você não é perfeito, e eu também não sou.

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 27/03/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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