Ser e ter, há limites!

aparentemente há limites para ter, mas não há limites para ser.

Abro o Chrome e digito: “www.amazon.com.br” (não é propaganda, hein). De imediato, já me são apresentados os mais vendidos! O que “todo mundo quer”, promoções imperdíveis, “você pode gostar de”… qualquer coisa, é bem provável que você encontre lá. E se você for Prime, então, mais descontos! Melhor que isso só aquelas lojinhas de “Ching Ling”, que parecem gritar aquele slogan: “tudo o que você sempre quis e nunca precisou”. Compras!

Comprar faz a gente se sentir poderoso. Ora, se eu compro é porque eu posso, logo, “tenho poder”. Poder de compra, alguns menos, outros mais. A sociedade sempre foi assim, e duvido muito que algo mude com relação a isso. Então, não é para comprar? Claro que você pode comprar! Você trabalhou, conseguiu sua grana, quer algo? Vai lá e compre! Ninguém tem nada a ver com isso. Mas há certos limites que precisam ser considerados.

A reflexão de Marina Silva sobre o consumo

Essa semana, vi uma reportagem da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Deixando a política de lado, de fato, ela fez uma leitura que me deixou muito pensativo. Falava sobre a sociedade de consumo, sobre como hoje temos mais a prioridade de ter ao invés de ser. Citou o fato de o planeta não conseguir dar conta de produzir tanto, tamanha a demanda que criamos por produtos e serviços. Porque é assim que a roda gira no capitalismo. Não sei se você percebeu.

Ela disse uma frase que me pegou: “…Se os outros países tiverem o mesmo comportamento de consumo que os EUA e a China, o mundo entra em colapso em um piscar de olhos…” Caracas! Nunca havia pensado sobre isso! Se todo mundo quiser a mesma coisa, o planeta não dá conta de suprir. Seguindo o pensamento, ela ainda cita que precisamos repensar essa necessidade de consumismo e, então, trocar o TER pelo SER. Finalizando, ela disse: “…Há limites para o TER, mas não há limites para o SER!”

O poder do consumo e a ilusão do sucesso

Isso me pôs a pensar um pouco mais! Desde o início dos tempos, vamos chamar assim, temos notícias de como o poder é ligado ao sucesso e à dominação. Disputas, antes mesmo da criação de sociedades, eram travadas a ferro e fogo. O mais forte, com mais poder, vencia. E para quê? Para TER, para saquear, obter os despojos do povo derrotado e, então, ter mais ainda. Bom, parece que nada mudou desde então.

Ainda temos, mesmo enquanto “plebeus”, esse anseio pelo poder, pelo TER. O capitalismo deu uma ajeitada nisso, criando camadas de “poder” para satisfazer a necessidade de toda a sociedade e, de alguma forma, dar o gostinho de olhar para o semelhante e dizer: “- Olha, eu sou melhor que você!” No final, no frigir dos ovos, todo mundo quer isso! Sucesso em consumir me parece muito ser sucesso sobre o outro. Doído, hein? Pois é, doeu aqui também.

  • Eu tenho uma bicicleta.
  • Ah, eu tenho moto.
  • Eu tenho carro, não me molho mais na chuva!
  • Meu carro não é popular, Deus me livre.
  • Mas o meu é completinho: ar, direção, rodas.
  • O meu custa R$30 mil.
  • Há, há, há, que isso? O meu tá R$60 mil.
  • O meu é maior, olho você de cima. SUV!
  • O meu é maior ainda. Se quiser, eu passo por cima.
  • HAVAL, meu bem. Acima de 250 mil…

E aí vai longe. Nosso sistema de consumo atingirá todas as camadas possíveis para que o dinheiro circule e fiquemos felizes com a sensação de poder. Tá, e depois? Depois dessas conquistas, o que mais sobra? Tem uma frase que eu gosto muito, aliás, duas. A primeira é: “Dê poder a uma pessoa, e você revelará sua real personalidade.” A outra é: “Tire seu poder e veja o que sobra!”

O SER além do TER

Tem gente que é tão pobre, tão pobre, que a única coisa que ele tem é o dinheiro! Entramos em um carrossel de consumo. Nada é suficiente, sempre é necessário ter mais. Seria leviano e mesquinho dizer que não sou impactado por isso da mesma forma. A sociedade molda o homem, e é preciso que esse homem se conheça o máximo possível de si mesmo para, em alguma medida, ser menos impactado por ela. Quer um exemplo? Vai para Minas Gerais e fica uma semana lá para ver se você não começa a falar “minerês” também (risos).

Diante disso, fica claro que, se não prestarmos atenção a nós mesmos e tivermos como régua que fulano é melhor que ciclano por conta dos bens que ele possui, o ciclo do nosso planeta terminará em escassez de recursos para produção dos tais bens importantes para satisfação do ego frágil.

Trazendo o pensamento da ex-ministra, está aí uma notícia boa: “Há limites para o TER, mas não há limites para o SER.” Conseguem roubar seu carro, sua casa, seu poder, mas não conseguirão roubar de você o prazer de poder amar os seus filhos. Seja, então, um bom pai, uma boa mãe. Não tenho uma casa na praia, e a minha acabou de pegar fogo. Fiquei sem nada! Mas tenho certeza que não fui queimado com ela. Ainda sou eu mesmo!

Há pessoas que se vendem pelo poder mesmo. Doce ilusão de um caminho mais fácil e tranquilo. E isso não é uma “praga”, “mal olhado”, mas uma certeza. No final, a conta chega. Não por uma justiça divina ou pela justiça do homem, que podem ou não acontecer, mas chega a hora de acertar as contas consigo mesmo. Lá no final, haverá um vazio, um ego sozinho, sem onde se segurar, porque não sabe o que de fato é.

Já tivemos exemplos onde um teve tudo e definiu que era tudo vaidade, e outro que não teve nada e até hoje faz a diferença na vida de muitos pelo modo como se portou, ensinou e agiu, pelo seu SER.

Qual deles lhe parece mais proveitoso? Não nego que quero ter. Isso seria tolice. Mas que o TER fique bem, mas bem atrás mesmo, do que eu quero SER!

Rodrigo Bazzan – 14/02/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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