Imposto impostor

uma reflexão sobre a sindrome do impostor

Não sei se com você isso já aconteceu, mas por muito tempo houveram dias em que parecia que eu estava ocupando um lugar que não me pertencia. Fazia as coisas bem feitas, recebia elogios, as pessoas confiavam, me admiravam, me procuravam. Mas, lá no fundo, algo sussurrava: “Você só teve sorte”, “Logo vão perceber que você não é tudo isso”, “Está enganando todo mundo, inclusive você mesmo.” Essa voz, quase sempre invisível, tem nome: síndrome do impostor. E sim, ela mora em muita gente, silenciosamente.

É como se existisse um imposto emocional que eu tinha que pagar todos os dias por estar onde estava. Um preço interno por cada conquista, como se eu devesse justificar minha presença, me desculpar pelo que sei, pelo que faço, pelo que construí. Um imposto alto, silencioso, cheio de dúvidas e culpas. Porque, por dentro, eu realmente achava que não era tão bom assim. E calma, pode parecer prepotência, mas você vai entender mais a frente que não é nada disso.

Quando o elogio constrange

Era, e ainda é, muito curioso. Porque os outros enxergavam com clareza, pelo menos algo de bom existia: “Você manda bem nisso!”, “Você é incrível!”, “Admiro seu trabalho!”. Mas dentro de mim parecia que as falas batiam e escorriam, não grudavam, na verdade geravam até um certo constrangimento. Porque o impostor interno já tinha respondido momentos antes: “Eles não sabem a verdade.”, “Você só enganou bem.”, “Nem foi tudo isso”.

É exaustivo viver tentando ser o que já se é, mas não se acredita ser.
É como lutar para provar algo que, na verdade não é preciso provar, mas mesmo assim, não reconhecido por quem mais importa: a gente mesmo. Você pode ser bom em algo, pode concertar um carro, limpar uma casa, cuidar de sua família de maneira exemplar, todos veem isso, mas quando você recebe algum elogio, aquilo assusta, doe lá dentro como se você acabasse de contar uma mentira.

A armadilha da autossabotagem

A síndrome do impostor não é sobre falsa modéstia. É um distúrbio da percepção. É o descompasso entre o que eu sou e o que acredito que sou. Ela não depende de evidências externas, porque a voz interna sempre encontra um jeito de desmerecer o próprio mérito: “Passei, mas a prova estava fácil.”, “Deu certo, mas foi sorte.”, “Conseguiram me ajudar, mas eu sou um peso.”

É como se você nunca merecesse nada! Não importa o que você faça, nunca será o suficiente. E mesmo que um dia você descubra a cura de todos os cânceres de uma vez só, ao terminar, o portador da síndrome dirá: “Por que demorei tanto?”. Percebe? Não existe alegria na conquista, seja ela qual for, é muito daquilo: “Não fez mais do que a sua obrigação!”

Em algum momento da vida, essa sensação se instala. Pode ter vindo da infância, quando os elogios eram escassos ou condicionais. Pode ter vindo de ambientes competitivos demais, onde ninguém podia errar. Pode ter vindo da comparação constante com os outros. Mas o ponto é: ela se instala, e começa a cobrar caro. Você vira uma máquina de produzir, mas sem nenhuma recompensa suficientemente boa, e ainda nega veementemente todas!

O caminho de volta para si mesmo

E o pior é que, quanto mais crescemos, quanto mais aprendemos, quanto mais responsabilidades ganhamos, mais esse imposto interno aumenta. Mais difícil fica reconhecer o próprio valor. Porque parece que o padrão se eleva a cada passo. Nunca é o bastante. E se por um segundo eu me achar competente… o impostor cochicha: “Cuidado com o ego inflado…”, “Está se achando hein, baixa a bola aí…”

Mas a verdade é outra: reconhecer suas qualidades não é arrogância, é lucidez. É saber o tamanho do seu esforço, da sua entrega, da sua história. É saber que errar não te invalida, que aprender é sinal de grandeza, que não saber tudo não te faz uma fraude. Te faz humano. Que cada um pode contribuir com um pedaço desse todo que é a vida.

um novo caminho

O caminho para reduzir esse imposto começa com um passo simples, mas poderoso: ouvir com verdade o que os outros dizem de bom sobre você.
Acolher esses elogios como se fossem justos, porque, na grande maioria das vezes, são.

Aproveito para trazer uma frase de Pierre Bourdieu, citada por Clóvis de Barros Filho:
“Os circuitos de consagração social são tanto mais eficazes quanto maior for a distância social do objeto consagrado.”
Clóvis traduz de forma simples: o valor simbólico de um elogio está diretamente relacionado à distância social de quem o faz. Um elogio vindo da sua mãe, por exemplo, pode parecer “contaminado” pelo afeto e proximidade emocional, o que faz com que, muitas vezes, você desconsidere ou minimize esse reconhecimento. Já quando o elogio vem de alguém mais distante, sem vínculos afetivos diretos, ele deveria ser interpretado como mais legítimo, como se confirmasse, de forma mais objetiva, aquilo que você custa a reconhecer em si mesmo.

E principalmente, começar a dizer a si mesmo:
“Ei, você tem valor. Em alguma medida você sabe o que faz, etc…”

É um processo. Um exercício. Um treino diário de se reconhecer no espelho sem se sabotar.

Não é sobre eliminar o impostor de vez, talvez ele sempre more num cantinho.
Mas é sobre aprender a não deixar que ele dirija a sua vida.
Você já caminhou demais pra ainda duvidar tanto de si.
Acredite no que construiu. Acredite em você.

Um abraço e fique bem!

Rodrigo Bazzan – 14/04/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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