uma reflexão sobre como negligenciamos as finitudes
Quando eu era mais novo, digamos bem mais novo, por volta dos sete anos, refrigerante não era algo que se tinha a toda hora. Lembro de umas garrafinhas de vidro com tampinha de metal, de guaraná ou tubaína, muito apreciadas pelos pequenos. Naquela época, por conta da escassez, ao invés de remover a tampa toda, era comum fazer um furinho com um prego e ir sorvendo o líquido em pequenas quantidades. As crianças passavam horas saboreando até que o líquido se acabasse.
Era difícil, mas muito prazeroso. Diria até que, mesmo depois, quando o refrigerante se tornou mais acessível, eu ainda praticava essa degustação da mesma forma, como que resgatando aquela lembrança tão gostosa.
Pequenos prazeres que marcam a memória
Leite condensado! Quem nunca fez dois furinhos em uma lata e se deitou no sofá após a aula para assistir ao filme da Sessão da Tarde, especialmente A Lagoa Azul? Esse filme passava bastante, quase uma lenda essa combinação! Alguns de nós não conseguíamos terminar a lata toda e a deixavam na geladeira para o dia seguinte. Já para outros, três latas eram pouco—e eu tenho certeza de que muitos desses hoje são diabéticos! Exagerados!
Percebe como essas lembranças são boas? Pelo menos para mim, sim! Sinto-me feliz ao relembrar esse passado já distante. Mas por que será que isso acontece?
Acredito que seja porque aproveitei ao máximo aqueles momentos, extraindo deles todo o prazer possível, entregando-me completamente ao presente, sem me preocupar com o passado ou o futuro. Naquele instante, só existia a lata de leite condensado, o refrigerante com a tampinha furada e o tempo que eu podia desfrutar.
A memória e o impacto das emoções
A memória funciona assim: quanto mais emoção um momento carrega, mais importante ele se torna para o cérebro. E, sendo importante, ele pensa: “Melhor eu guardar isso aqui!”
Quer treinar sua memória de longo prazo? Viva uma vida emocionante! Os eventos estarão lá, gravados automaticamente, sem muito esforço. Terá muitas histórias, boas e ruins, para contar quando estiver mais velho.
Agora, faça um exercício: tente recuperar suas lembranças dos últimos dez anos. O que você encontra? O que recorda? Consegue avaliar como viveu esse período ou ele simplesmente passou despercebido?
Espero que suas recordações sejam abundantes, pois isso significará que você está vivendo a vida de maneira plena. Não no sentido de evitar o desprazer, mas no sentido de senti-la verdadeiramente acontecer.
A finitude como despertador da vida
Repare nesta comparação: quando sabemos que algo que gostamos vai acabar, nos entregamos ao momento e extraímos dele tudo o que conseguimos.
Isso aconteceu com a garrafinha de refrigerante e com a lata de leite condensado—sabíamos que iam acabar, então aproveitávamos ao máximo.
Agora, pense: a vida também vai acabar, meus queridos. E, às vezes, percebo que estou vivendo como se houvesse sempre um amanhã. Mas, em algum momento—cujo dia e hora são desconhecidos—esse amanhã simplesmente não virá.
Não verei mais o sol, a noite, as estrelas. Nem sentirei mais o ar passando pelos meus pulmões. a presença das pessoas que amo ao meu redor. E terei visto o último sorriso da minha esposa sem saber que foi o último.
Isso assusta? Ah, um palavrão cairia muito bem aqui para expressar a intensidade desse sentimento! Claro que sim! Mas é inevitável. Assim como o refrigerante acabou, um dia tudo acabará. No entanto, vivemos como se isso nunca fosse acontecer.
A vida não tem “tanque reserva”. O carro vai parar e não haverá como fazê-lo andar de novo. Acabou!
Viver sem medo, mas com presença
Isso pode parecer uma mensagem triste, algo que nos coloca para baixo. Afinal, pensar sobre a morte ainda é um tabu.
Mas, se invertermos a lógica e enxergarmos isso como um convite para aproveitar a vida ao máximo, talvez o medo dê lugar a um pensamento muito mais poderoso:
“Agora que eu vou arrebentar com tudo e viver como se NÃO houvesse amanhã!”
Com responsabilidade, com maturidade, mas sem medo de algo que já está fadado a acontecer. Viver com medo da morte é não viver completamente. Quando conseguirmos nos libertar desse medo, a vida se tornará mais bela e desejosa do que nunca. Seja presente. Viva!
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 03/04/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung