uma reflexão sobre O papel dos pais na formação da psique humana
Duas famílias, na primeira, o marido tratava a esposa com respeito e carinho, riam juntos, conversavam, se apoiavam nos momentos difíceis. Apesar dos problemas, das dificuldades, muitas vezes até a falta de recursos básicos para uma sobrevivência digna, o ambiente se mantinha na medida do possível tranquilo e acolhedor.
As roupas nunca eram novas, recebidas com gratidão através de doações. Parentes, amigos, hora ou outra aparecia uma peça “nova” aqui ou ali encaixando-se, ainda que não perfeitamente, no corpo de alguém, que com um sorriso no rosto, demonstrava gratidão girando o corpo para que todos pudessem ver o resultado. Havia educação, respeito, cada qual sabia o seu lugar dentro do contexto familiar, os adultos proviam, e os filhos eram providos, não com o melhor do material, mas com algo muito mais caro e potente, uma aula de como viver uma vida digna, grata e feliz.
Nessa casa, os filhos cresceram seguros, confiantes e com a cabeça no lugar.
A outra casa
Na casa ao lado, a realidade era bem diferente. O casal vivia em constante conflito, gritos e até violência, não viviam um para o outro, era sempre uma competição entre si. O medo e a tensão estavam sempre presentes. Como tinham muito dinheiro, as crianças eram providas materialmente como forma de compensação. As melhores roupas, as melhores comidas, estudaram nas melhores escolas, viviam confortavelmente. “O que mais vocês querem?” esbravejava o pai, com gritos e denunciando que tinham “do bom e do melhor”, e que não eram gratos pelos esforços sobre-humanos ao qual tinha que se sujeitar para lhes prover tudo aquilo.
Os filhos cresceram e se tornaram aos olhos de todos, “bem sucedidos”, mas apesar de terem cargos importantes nas empresas que trabalhavam, eram emocionalmente instáveis, frágeis, com “um buraco enorme do peito”, um vazio sem precedentes. Ensinados que a felicidade segue o sucesso financeiro, que alegria chega apenas através de um carro novo, um jantar exótico, exibições de poder e pouco se importar com quem está ao seu lado. Nada lhes é suficiente, não há tempo para contemplação, para gratidão, não há tempo para se importar, seja lá com o que for.
Dessa casa, os adultos formados, carregavam marcas que iam muito além do físico, era uma tristeza que não se via no rosto, mas que transparecia nas atitudes, repetindo novamente o ciclo com os próprios filhos, davam tudo o que o dinheiro podia comprar, menos o que de fato, dinheiro nenhum compra.
O que os pais ensinam sem palavras
Estórias com “e” mesmo porque são uma ficção, mas não raramente acontecem nos dias atuais, a geração que virá, será a de nossos filhos, o que estamos fazendo com eles? O que temos ensinado, quais são os valores que estamos plantando no coração de cada um deles? Olhe para eles agora, são seguros? Conseguem demonstrar afeto, são gratos pelo que têm, tendem a ser pacificadores, em empatia, lidam bem com as falhas e frustrações. O que você tem ensinado?
O principal ensino não vem de nossas palavras mas de nossas atitudes, uma vez eu ouvi uma frase que nunca mais esqueci, ela dizia: “Eu posso esquecer do que você me falou, mas eu nunca vou esquecer do que você me fez sentir!” O que nossos filhos sentem a nosso respeito?
Nossos exemplos falam mais do que mil palavras, quer saber mais sobre isso em um contexto da psicologia, procure por Albert Bandura processo de modelagem, ele explica exatamente como isso funciona, mas pra mim isso é mais óbvio do que a terra não ser plana! Tá na cara, desde que o homem é homem ele busca alguém para se identificar, seja o ídolo do seu filho, seja a pessoa com quem você quer que seu filho pareça.
Pais como moldadores da psique
Nós, os pais, somos as pessoas mais próximas, as com maior valor afetivo para os pequenos, que são como esponjas absorvendo tudo ao seu redor, sejam aprendizados bons, maus ou traumas. E isso ficará cravado no coração deles, como fizeram nossos pais em nós.
No fim das contas, o que recebemos em casa se reflete em quem nos tornamos. E entender isso é o primeiro passo para mudar ciclos, curar feridas e construir relações melhores, para nós e para nossos pequenos.
Rodrigo Bazzan – 10/06/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung