Relembrar sem se perder

uma reflexão sobre o impacto das lembranças

Eu e você temos memórias, alguns mais, outros menos, dependendo do tempo que já passamos nessa terra. Algumas serão boas, outras nem tanto, e outras gostaríamos, com certeza, que não existissem de forma nenhuma. Cada uma delas tem um papel fundamental em como lidamos com nossa vida, impactam profundamente nossas decisões e nosso modo de agir.

Lembro de um dia estar brincando com meus amigos, em uma praça no Jardim Inocoop, aqui em Rio Claro – SP. Estávamos em uma verdadeira guerra de pedras de calçada, metade dos meninos de um lado da praça e outra metade do outro, escondidos e se protegendo como podiam das pedras de calçada portuguesa que inundavam o céu naquele momento. Perigoso? Diria que mortal! Uma pedrada daquelas na cabeça era UTI na certa, mas nós, bom, éramos moleques, e moleques são irresponsáveis mesmo.

No final, nenhum machucado preocupante — um pouco de sangue em um tornozelo aqui, outro na canela de alguém —, mas felizmente sem ferimentos na cabeça. Todos os malucos festejando e contando como desviaram das “bombas” ou como acertaram o amigo-inimigo momentâneo.

As memórias de longo prazo são gravadas assim: com emoção. Sem emoção, nada fica. O cérebro entende que não é importante, então ignora completamente. Em no máximo dias, se não for retomada ou trabalhada, ela desaparece para sempre. Assim é nos estudos. Tudo fica difícil porque estudar, na grande maioria das vezes, é deveras monótono e sem emoção.

Quando a emoção deixa marcas profundas

Mas, lembrando que basta haver emoção para que a lembrança permaneça por um longo período de tempo, a mente se torna uma artista teimosa. Vai costurando lembranças, como quem monta um quebra-cabeça sem saber se está criando uma paisagem ou uma prisão. Porque, obviamente, não são só as lembranças boas que são emotivas. Diria que as de maior emoção são, infelizmente, as ruins.

Algumas memórias nos abraçam, aquecem, fazem sorrir. Outras nos puxam de volta como se dissessem: “Ei, ainda estou aqui”. E estão mesmo. Impregnadas em cheiro, som, lugar, rosto, silêncio. Mas, de certa forma, o problema não são as memórias. O problema é o peso que damos a elas.

Quando a saudade vira armadilha

E como nem toda lembrança é leve. Algumas parecem gritar dentro da gente, repetindo o que já foi, o que poderia ter sido, o que não volta mais. E a saudade, a dor, quando mal digerida, se transforma numa espécie de melancolia crônica. Você até sorri, mas tem uma parte ali dentro sempre presa em um momento que aconteceu anos atrás — às vezes até décadas. E isso, com o tempo, vai consumindo. Porque ninguém vive o hoje com o pé enfiado no ontem.

E eu falo isso com conhecimento de causa. Já me vi revivendo cenas, falas, olhares, como se fosse possível reescrever o passado na base do pensamento. Está tudo lá, mas as hipóteses que teimamos colocar, como “mas e se tivesse sido assim, ou assado?”, não servem e não servirão para absolutamente nada — apenas mais frustração. O que dá é para ressignificar. É olhar para tudo aquilo e dizer: “Sim, aconteceu, doeu, mas agora eu sigo.”

Memória não é sentença

A gente tem mania de achar que o que vivemos define o que somos. Como mencionei no início, com certeza nos influencia, claro, mas não define! Porque a memória não é uma cela. Não parece, mas é possível trabalhá-la, mudar o foco, observá-la, reconstruí-la sob novos olhares, outros ângulos e encontrar outras interpretações. Ela pode ser ponte. Pode ser aprendizado. Pode ser até combustível para mudar.

É preciso coragem para encarar o que machucou. Revisitar lugares internos onde você deixou partes suas esquecidas. E, mais ainda, é preciso maturidade para aceitar que nem toda lembrança vai fazer sentido — mas, mesmo assim, merece respeito.

A memória não é inimiga. Mas a forma como lidamos com ela pode ser.

Você está aqui, no agora

O passado está escrito, mas o presente ainda está em branco. E é nele que você pode decidir o que fazer com tudo aquilo que um dia viveu. Nem sempre vai ser fácil, e tudo bem. A vida também é feita de dias difíceis, mas eles não duram para sempre. Acredite em mim: tem coisa boa vindo aí, mas você só vai ver se olhar pra frente.

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 21/05/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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