um texto sobre a falsidade do ser
A simplicidade da natureza
Na natureza é assim: pau é pau, pedra é pedra. Pelo menos entre ela, digo, a natureza, ninguém fica duvidando ou desconfiando de si ou do outro. Você não precisa se provar SER, nem o outro fica duvidando que você é uma pedra, ou um galho, ou um tatu! As coisas são como são, e ponto final. Tudo é bem mais simples e direto, sem rodeios. Não existe o “Denorex: parece, mas não é”. Esse slogan é para poucos que ainda lembram.
Ok, alguns animais foram agraciados com a capacidade de se camuflarem, mas o fazem sem consciência, apenas por instinto de sobrevivência.
O Sr. Sapiens Contemporâneo
Agora, apresento-lhes o Sr. Sapiens Contemporâneo, vulgo “Zé da Esquina”, para então tudo ficar mais complicado. As coisas que deveriam ser, às vezes só parecem! Se você olhar bem de pertinho, acaba se assustando com tamanha discrepância com o “produto original”. Ele é quase um mutante daqueles do X-Men (vide Marvel Comics): se adapta a qualquer situação, faz qualquer coisa para levar vantagem, para se dar bem!
Dessa forma, me parece que as coisas começaram a cair em descrédito. Tudo tem se tornado cada vez mais falso, e o sentimento de desconfiança se tornou absolutamente normal. Não digo que desconfiar seja algo ruim, mas, até o que era para ser concreto, hoje em dia, precisa de um olhar um pouco mais cuidadoso. Pode ser que a sociedade esteja infestada de psicopatas. Afinal, psicopatas não se importam em camuflar – pelo contrário, são especialistas nisso. Mas acho pouco provável. Apostaria mais no que todo mundo tem consumido ultimamente: “Eu preciso vencer! O outro é bem mais feliz do que eu! Eu também quero!” E coisas semelhantes a essa.
O jogo das aparências
Para isso, basta que eu, “Pedra”, pareça “Pão”. Ora, como “todo mundo” faz o mesmo “jogo” de se mostrar o que não é, por um tempo, eu me sairei muito bem! Até que, em algum momento, alguém descubra, e a minha verdadeira identidade apareça: dura, fria e pesada! É pedra! Mas, até lá, posso arriscar conseguir meus objetivos, ser tão “feliz” quanto meu vizinho ou, pelo menos, aparentar ser. Isso é menos doloroso do que encarar a realidade: a de que sou pedra!
A caderneta do mercadinho
Caderneta no mercadinho! Eu ia buscar pão pela manhã, levava comigo um pequenino caderno de anotações, a tal caderneta. Pedia o pão, a “mortandela” 😊 e o leite. Então, a pessoa marcava no livrinho o valor da compra, e minha bisavó pagava quando recebia o pagamento. Havia confiança! As pessoas eram o que eram, em sua maioria honestas, e não precisavam provar a veracidade da sua índole. Bastou um aqui, outro ali, começarem a não pagar, a se mostrarem falsos “honestos”, para que os que eram honestos de verdade “pagassem o pato”. O que era tido como certo (pagamento) passou a ser desconfiança (inadimplência). “Agora, fiado só amanhã, baby!”
Desconfiança generalizada
Hoje, até quem é “verdadeiro”, ou pelo menos deseja ser, confunde-se com o que não é! Há desconfiança generalizada, e quando você se mostra com uma qualidade que está em extinção – por exemplo, honestidade –, um alerta imediato é acionado: “Até parece, duvido que você é assim…” Isso se dá principalmente ao fato de que quem julga, muito provavelmente, não tem essa qualidade, mas gostaria de ter! Logo, se ele não tem, você também não pode e precisa ser desacreditado. Percebe que ainda é sobre vencer? Ainda que uma boa qualidade possa ser apresentada novamente, é melhor colocá-la em descrédito. Afinal, ninguém conhece isso por aqui.
Pão ou pedra?
Finalizando, em terra de pães (verdades) e pedras (mentiras), quem é você? Sei que, se você for pão, não haverá dúvidas. Então, essa pergunta será redundante, e ficarei muito feliz com você pela sua escolha. A humanidade precisa de pão, alimento que revigora o ser quase que imediatamente quando ingerido.
É preferível viver de pão e água do que de um banquete de falsidade e mentiras.

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung