O beija-flor que apagava incêndios

um texto sobre coragem e determinação

O Beija-flor e o Incêndio

Em tempos de seca, sempre existem incêndios. Há os que são criminosos e os que são de causa natural, por conta do excesso de calor. Certa vez, me lembro de ter ouvido uma história, uma parábola sobre um tal beija-flor que, no meio de um incêndio, continuava insistentemente tentando apagá-lo sozinho. A história era mais ou menos assim:

“…Um beija-flor voava velozmente sobre a lagoa, enchia seu bico de água, se direcionava acima do fogo e então despejava-a sobre o incêndio. Tinha a clara intenção de realizar o que todo mundo deveria fazer: extinguir as chamas e salvar aquela área de mata, onde viviam outros animais que não poderiam realizar tal proeza – voar sobre as chamas, soltar a água e voltar para reabastecer tão rapidamente…”

A crítica da raposa

“Tisc, tisc!” – fez a raposa, com a boca em tom de desaprovação, dizendo em seguida em voz alta: “Que coisa mais inútil! Quem esse beija-flor pensa que é?”

O beija-flor, concentrado em sua tarefa, aparentemente nem sequer ouviu os brados de descontentamento da raposa frente à sua ineficácia e continuava realizando seu trabalho sem interrupções, sem descanso.

A raposa, extremamente incomodada com a situação, não se aguentou. Foi em direção ao lago onde o beija-flor abastecia-se e o esperou planar.

“Ei, beija-flor! Beija-flor?” – gritava ela. “Está maluco? Você nunca vai conseguir acabar com esse incêndio desse jeito! Pare com isso!”

Mas o beija-flor não podia perder tempo. Havia um trabalho muito importante a ser feito, e ele continuava sem descanso, a toda velocidade. Um rasante sobre o lago, abastecia seu bico, subia e deixava aquela insignificante quantidade de água sobre as chamas. A quantidade nem tocava o chão – era instantaneamente evaporada pelo calor.

“Pare, seu idiota! Que tolice é essa? Pare agora mesmo!”

O fim do incêndio e a lição do beija-flor

O fogo continuava a consumir toda a área. Os animais, aqueles que ainda não tinham sido pegos pelas chamas, fugiam para um lugar mais seguro. Tudo já estava perdido, sem solução, com o destino completamente traçado. Aquela área de mata seria consumida até o último pedaço de madeira e corpos existentes. E assim foi!

Ao término do incêndio, com as penas chamuscadas pelo fogo e ofegante pelo esforço, o beija-flor se deu conta de que seu trabalho havia terminado. Mais um rasante sobre a água do lago, um pouco mais lento dessa vez, agora para saciar sua sede. Bebeu a água dos corajosos, dos justos, dos que se preocupam, dos que lutam até o final. Alçou voo ao céu e foi-se sem deixar paradeiro.

Reflexão final

Fica aqui, então, uma excelente reflexão: quem você e eu queremos ser? Aquele que aponta, decide e não se compromete, ou aquele que luta, mesmo sabendo que a batalha já tem o seu rumo traçado? Há coisas na vida que precisam ser feitas, e ponto final. Nunca serão sobre ganhar ou perder, mas sobre caráter, sobre humanidade, sobre amor e compaixão.

O mundo parece se encaminhar para dor e sofrimento, parece um caminho sem volta, sem solução. Cada vez mais, as pessoas pensam nelas mesmas de um modo egoísta e narcisista. Parece que algo só vale se for útil: “O que eu ganho com isso?” O valor das coisas está completamente invertido. Peço todos os dias que eu não me torne o que a sociedade tem pregado como sendo o ideal do EU: mesquinho e oco, sem valores que, há muito tempo, forjaram o mundo que nossos pais e avós viveram. Nostálgico? Sim, infelizmente!

O beija-flor? Bom, ele não fez parte do que a sociedade (a raposa) lhe impôs. Tenho certeza de que, onde ele estiver, estará em paz consigo mesmo. Ainda que aparentemente ineficiente na questão de apagar o incêndio, ficou muito longe de ser medíocre. Fez o melhor que pôde, com o que tinha nas mãos.

Seu destino? Bom, gosto de pensar que está em algum lugar, nesse momento, ainda tentando apagar incêndios, sabendo que não terá sucesso na maioria das situações, mas em paz consigo mesmo, por não ter deixado sua essência sucumbir!

Rodrigo Bazzan – 19/02/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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