Diga que eu existo!

uma reflexão sobre a necessidade do outro na validação da nossa existência.

“Bom dia!” – digo ao passar por uma pessoa, mas não recebo o retorno esperado. Fico chateado:

“Que falta de educação! Falei ‘bom dia’ e a pessoa não me respondeu! Metida!”

Várias coisas podem ter acontecido nesse momento, mas uma delas é certa! Uma possibilidade é que a pessoa simplesmente não tenha te ouvido – seja por problemas auditivos, distração ou porque você falou baixo demais. Outra possibilidade é que ela realmente não quis responder.

Mas, em todos os casos, a única certeza é: você se sentiu ignorado, menor, sem valor, inexistente!

O Outro e a Nossa Validação

Essa situação traz uma reflexão importante sobre como o outro nos impacta na validação da nossa existência. Pode parecer exagero, mas, ao meu ver, nem tanto. Nosso dia a dia é cercado por relacionamentos, e quem sabe se relacionar bem tem uma ferramenta poderosa nas mãos. Relacionar-se é uma arte, independentemente da pessoa com quem nos relacionamos.

No relacionamento, provoco o outro a me “informar” sobre minha existência. Isso pode acontecer através de um sorriso, um olhar rancoroso, um gesto… Seja como for, quando há uma devolutiva – e como a maioria de nós não fala com pedras – todos os sinais indicam que o destino daquele sorriso ou olhar sou eu.

Logo, tenho o que desejo: ser visto!

“Falem mal, mas falem de mim” – essa frase carrega muito esse significado. O que queremos, no fundo, é sermos percebidos.

O Medo da Morte e o Desejo de Permanecer

Fazemos isso quase sempre de maneira instintiva, sem perceber. O medo da morte tem muito mais a ver com o “não mais existir” do que com a passagem em si. Morrer é ser esquecido, deixar de existir é não ser lembrado.

As pirâmides do Egito foram construídas exatamente com esse propósito: para que, por milhares de anos, as pessoas não se esquecessem de que aquele faraó havia existido.

Nossas Próprias Pirâmides

Ainda hoje, construímos nossas próprias “pirâmides”. Aqui em Rio Claro – SP, basta entrar no cemitério municipal para encontrar enormes túmulos. Eles simbolizam mais do que um simples local de descanso eterno. São um símbolo da grandiosidade que aquela pessoa teve em vida.

E não fazemos isso apenas após a morte. Autobiografias, fotografias, vídeos, áudios… Os formatos não param de surgir. No fim das contas, tudo isso serve para um único propósito: imortalizar, não ser esquecido e, assim, continuar existindo.

A Ilusão da Imortalidade

Fiz um trabalho de árvore genealógica e descobri pessoas interessantíssimas da minha família! De certa forma, elas “renasceram” na minha memória. Mas sei que, logo, irão embora novamente… “Morrerão” mais uma vez. Meus tataranetos, provavelmente, não se lembrarão nem de mim, quanto mais desses meus antepassados. Um dia, o fim definitivo chega para todos nós.

A Busca por Validação nas Redes Sociais

Nas redes sociais, essa necessidade de validação é ainda mais evidente!

“Nossa, olha quantas pessoas me viram!” – a contagem de visualizações é um indicativo claro de que “eu existo”.

Mas essa exposição também tem seus problemas. Quanto mais você se expõe, mais é julgado. E surge a necessidade de manter a fantasia que seu público criou sobre você.

Caso percebam a incongruência entre expectativa e realidade, você será cancelado. E o cancelamento nada mais é do que uma forma de “morte” virtual. Alguns não suportam isso e, tragicamente, acabam de fato falecendo.

A Importância de um Sentido Real

O outro tem um papel fundamental na validação da nossa existência. Mas precisamos ter cuidado para que essa validação não seja ilusória, obsessiva ou ambiciosa. Hoje, ao cruzar olhares com alguém, ao dizer um ‘bom dia’, ao compartilhar um momento, lembre-se: você tem o poder de fazer alguém se sentir visto. Você tem o poder de existir para alguém. Use-o com sabedoria!

Deixe seus registros, escreva sua autobiografia – isso é terapêutico. Mas, se deseja realmente permanecer “vivo”, crave seus valores no coração das pessoas que ama.

Você existe, sim, mas não existirá para sempre. Enquanto existir, dê sentido à vida das pessoas ao seu redor. Talvez elas não se lembrem de você, mas, se seus valores persistirem, sua existência terá valido a pena.

Termino com uma frase que “roubei” de uma amiga (Ana Julia): SAWUBONA! Em zulu, significa: “Eu te vejo, e ao te ver, eu te trago à existência.”

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 31/03/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

Botões Alinhados