Há um vilarejo ali…

uma reflexão sobre o que realmente desejamos

Hoje, vim para o trabalho ouvindo uma música da Marisa Monte, e ela me fez refletir mais uma vez — como tenho feito muito ultimamente — sobre meus desejos e sobre como o “simples” se perdeu em meio ao caos. Às vezes, esse caos é até desejavelmente complexo, com escolhas diárias que nos prometem um mundo “melhor” e mais “feliz”.

Marisa canta:

“Há um vilarejo ali, onde areja um vento bom, na varanda, quem descansa, vê o horizonte deitar no chão.”

Imagine essa cena: uma brisa suave, uma varanda tranquila, o horizonte ao fundo. Para alguns, essa imagem remete a uma casa de veraneio luxuosa, com uma bela piscina e vista para as montanhas. Mas será que uma casa simples, uma varanda de alvenaria e uma xícara de café não trariam a mesma satisfação? Talvez até mais!

A Perda da Essência e o Distanciamento do Natural

Estamos perdendo a essência e nos afastando do que é natural. Hoje, parece que nada nos satisfaz. Sempre há um novo objeto, uma nova conquista que supostamente trará felicidade. Corremos como coelhos atrás de cenouras, como diria Clóvis de Barros. O simples já não é valorizado; pelo contrário, é tratado como fracasso.

Estamos tão perdidos que já nem sabemos quem somos. A inveja nos consome, julgamos a vida dos outros mais felizes do que a nossa e nos sentimos incompetentes. Isso porque aprendemos que a felicidade está sempre no futuro — quando conquistarmos determinado bem ou alcançarmos um status específico. Mas será que essa promessa de felicidade faz sentido?

O Engano da Felicidade Condicionada ao Sucesso Material

O sistema quer que desejemos cada vez mais, pois, sem desejo, ele entra em colapso. Então, criam-se novos anseios o tempo todo: sucesso é dinheiro, poder, ostentação. Mas será que sucesso não pode ser simplesmente viver bem?

Quer um exemplo de verdadeira competência? Pense na sua bisa-avó, que, mesmo na simplicidade da vida, criou sete, oito, dez filhos. Todos cresceram brincando no quintal, deitados no chão da varanda, sujos de terra, mas muito mais felizes do que muitos de nós hoje. No passado, crises de ansiedade eram raras, e a vida seguia um ritmo mais pacífico, com o que era natural.

O Futuro da Simplicidade Está Ameaçado

Sorte de quem já viu um pé de laranja! Exagero? Veremos. Daqui a alguns anos, muitas pessoas não saberão mais de onde vem a comida, não terão contato com nada natural e serão afastadas completamente de sua origem. O alimento será tratado como medicação, água será substituída por refrigerante e o leite não virá mais da vaca, mas do supermercado.

Por quê? Porque quem está satisfeito com o simples e com o natural volta às origens. E quando estamos em casa, em nossa essência, encontramos a felicidade verdadeira e a paz de espírito que tanto desejamos.

Marisa Monte continua cantando:

“Pra acalmar o coração, lá o mundo tem razão, terra de heróis, lares de mãe, paraíso se mudou para lá.
Por cima das casas, cal, frutos em qualquer quintal, peitos fartos, filhos fortes, sonho semeando o mundo real.
Toda gente cabe lá, Palestina, Shangri-lá.
Lá o tempo espera, lá é primavera, portas e janelas ficam sempre abertas, pra sorte entrar.
Em todas as mesas, pão, flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção.”

Se não valorizarmos o simples agora, tenho a impressão de que dificilmente valorizaremos no futuro. E isso não me parece nada promissor.

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 04/04/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

Botões Alinhados