uma reflexão sobre o Porquê evitamos conversas difíceis.
Há sempre o que dizer, há sempre uma opinião sobre algo, sobre uma circunstância, sobre decisões tomadas, por nós ou pelos outros. Na verdade, adoramos “dizer” sobre as decisões alheias como forma de justificar nosso estado atual, principalmente quando a decisão do outro lhe é benéfica e nos enche os olhos de inveja.
A tal “inveja santa”
Inveja “santa”, diriam alguns, pois têm um vínculo social próximo com o “felizardo”, mas, no fundo, o: “- Eu quero te ver bem, mas não melhor que eu!” sempre aparece espreitando pelas sombras. Inveja que de santa não tem nada! É difícil, para a grande maioria de nós, ver alguém tão próximo se “dando bem”. Fere a nossa ferida, que quase sempre está aberta — a ferida do “Por que isso não acontece comigo?”, aquele que grita para a vida: “- Olha, como eu mereço algo de bom! Você não está me vendo?” E, quando a vida lhe traz algo não tão interessante, surge: “- Vida! O que fiz para merecer isso?”
O falso sincerão
Sim, sempre há o que dizer. Bem ou mal, somos assim. Haverá outros momentos em que se calar será o melhor a fazer. Isso vem com o tempo, com a experiência. Muitas pessoas se gabam de terem aquele estereótipo do sincerão: “- Eu falo na lata mesmo, não tenho meias-palavras”. Mas, com o tempo, com o passar dos anos, acabam percebendo que mais perdem do que ganham com isso, e que terão um prejuízo muito grande se tentarem sustentar essa infantilidade! Sim, só as crianças têm esse direito. E por quê? Só porque são crianças. Simples assim.
O peso das conversas desconfortáveis
Mas haverá momentos em que uma conversa desconfortável precisará existir — e isso nem sempre é fácil. Afinal, desconfortável remete ao esforço de enfrentar o desconforto. Logo, não faremos isso deitados em uma rede, olhando um pôr do sol e tomando água de coco. Muito provavelmente, a tensão se espalhará no ar, braços cruzados serão desfilados indicando a necessidade de se proteger, olhares atentos e até mesmo algumas testas franzidas podem aparecer. Desconforto!
Verdades de ambos os lados serão postas “na mesa”. Talvez algumas sejam difíceis de digerir para os interlocutores, pois, em um diálogo, a gente fala — mas também tem que saber ouvir. Caso contrário, é provável que a conversa não termine de forma produtiva. Ser um bom orador é importante, expressar a ideia se faz necessário. Temos uma tendência bem maior de falar como uma matraca, justificar nossos pontos de vista. Mas, na hora de ouvir, somos péssimos em interpretação. Nesse momento, calma e empatia são desejadas. Não tenha pressa com a tréplica!
Por que evitamos conversas difíceis?
E por que evitamos conversas difíceis? Porque nesse tipo de diálogo surgirão, na maioria das vezes, sentimentos delicados: decepção, frustração, rejeição, mágoa. Evitá-las é um mecanismo de defesa que protege o ego de lidar com verdades incômodas — tanto as que precisamos dizer quanto as que poderemos ouvir.
Psicologicamente, isso se relaciona com o medo do conflito, a busca por aprovação e, muitas vezes, a fantasia de que ignorar o problema o faz desaparecer. Na verdade, o que evitamos tende a crescer e ganhar contornos fantasiosos: projetamos o pior cenário possível, e isso paralisa a ação.
Silêncio como muro, não ponte
Além disso, muitas pessoas carregam a crença inconsciente de que o amor ou o vínculo com o outro pode se romper se a verdade for colocada na mesa. Então, calar vira uma tentativa de preservar. Mas o silêncio prolongado vira muro, não ponte.
Duas opções, um mesmo desconforto
Dessa forma, temos apenas dois caminhos: o sentir-se mal por um período prolongado sem resolução, ou o sentir-se mal pela conversa desconfortável, com a possibilidade de, no diálogo, encontrarmos uma resposta, novas opções, uma luz no fim do túnel, um horizonte — escolha o adjetivo que mais lhe pareça amigável com relação ao tema da sua conversa. Esperança!
Escolher não é fácil — e olha, isso não muda nunca! Espero que você consiga fazer a sua escolha e viver bem com ela!
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 16/04/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung