uma reflexão sobre porque deixamos as coisas pela metade.
Não sei se você já se deu conta, mas comigo aconteceu algumas vezes. Hoje tenho prestado mais atenção para tentar minimizar esse tipo de situação. Me refiro ao hábito de começar algo e não conseguir terminar, sempre com a desculpa de que há algo mais importante a ser feito. O projeto iniciado, às vezes quase finalizado, fica sem conclusão. Por muito tempo me perguntei o motivo disso e acreditava, quase sem dúvidas, que eram as “outras coisas” que surgiam e me tiravam o foco.
O ciclo dos projetos inacabados
Primeiro foi um banco de cimento. Demorei algumas semanas para quase terminá-lo, e ainda hoje ele está incompleto. Logo, foi substituído por outro projeto mais legal: um aquário de dois metros. Sempre gostei de aquarismo, então mergulhei nessa nova ideia. Fiz toda a estrutura, o encanamento, o filtro… e quando só faltavam os vidros, tudo parou de novo. “Os vidros são caros demais, não dá agora”, eu dizia.
Então nasceu um novo projeto, um aquário menor, no hall entre os quartos. Fiz toda a alvenaria mais uma vez, recentemente reboquei e cobri com cimento queimado. Agora falta impermeabilizar, comprar a bomba e finalizar. Mas logo percebi que o desânimo estava batendo outra vez.
Tenho dois livros prontos, ainda não publicados. A desculpa é sempre a mesma: não tenho como pagar um diagramador. Penso que, se eu aprender a fazer isso, consigo poupar e lançar. E foi aí que me veio um insight poderoso: “Será que isso tudo não é medo?”
Parei. Reflito. E a pergunta ecoa: Será mesmo?
A zona segura do inacabado
Comecei a perceber que essas desculpas me protegiam da experiência de concluir algo. Afinal, como criticar algo que não foi terminado? Quando mostro meus projetos, sempre digo: “Esse é meu banco, ainda não terminei.” Ou: “Esse é um aquário que estou montando.” Ou ainda: “Tenho dois livros escritos, mas continuo trabalhando neles.”
Percebe como isso é seguro? Como evita cobranças, críticas ou olhares desconfiados sobre aquilo que criei? Talvez o verdadeiro motivo seja justamente esse: medo de terminar. Porque finalizar significa se expor, assumir a obra como sua, dar vida ao que antes era só imaginação. E isso, dá medo.
Finalizar é existir
Ninguém me pediu para fazer um banco, um aquário ou escrever livros. Eu quis fazer. Fiz como forma de expressão, como método de sublimação das minhas questões — como quem escreve uma música ou pinta um quadro. E talvez agora o medo seja da responsabilidade de concluir. Porque concluir é dar existência, é tornar real o que antes era apenas ideia.
Essa reflexão, por si só, já valeu o dia. E mais do que isso: me fez perceber que ainda há tempo para finalizar antes de começar novas coisas. Que este ano, ao invés de acumular inícios, eu me comprometa com as chegadas.
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 14/04/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung