Doce Desejo, Amarga Decisão?

um reflexão sobre, desejo e escolhas

Eu adoro pudim. Uma vez me deparei com um pudim de 12 pedaços — todos do mesmo tamanho, suculentos, com aquela calda de caramelo maravilhosa escorrendo por cima. Pego então a espátula para extrair um pedaço e me vem a dúvida: qual deles eu devo pegar? Olho por cima e, aparentemente, são todos iguais. Não faria tanta diferença.

Então me proponho a pegar aquele que está mais fácil, bem na minha frente. Sirvo-me do pudim, saboreio… é delicioso, como eu imaginava. Diante disso, me ponho a pensar novamente no desejo de mais um pedaço. Penso no valor e decido comer mais um. Como novamente. O pudim continua gostoso, mas percebo que restaram nove pedaços que não foram escolhidos, mas que tinham a mesma probabilidade de serem tão bons quanto o primeiro — ou o segundo.

A expectativa e o gosto repetido

O primeiro pedaço era mais desejado. O segundo foi bom, mas nem tanto — o impacto já não era o mesmo. A associação primeira do desejo é especial, mas repetir a experiência raramente gera o mesmo prazer. A expectativa diminui. O sabor já é conhecido, a textura também. Afinal, ainda é um pudim.

Escolher é renunciar

A segunda reflexão que me vem é sobre as possibilidades de escolha. Ao escolher um pedaço de pudim, deixei de escolher outros 11. Talvez o pedaço de cima estivesse mais aerado. Mas como saberia? Teria que ter escolhido aquele. Optei por outro.

O rio e suas águas

Isso me leva a pensar sobre as decisões da vida. Quando escolhemos uma coisa, deixamos de escolher outras infinitas possibilidades. Não somos obrigados, mas é um fato: só se pode escolher uma coisa por vez. E não conseguimos trabalhar com muitas escolhas simultaneamente de forma produtiva e com qualidade.

É como um rio: ele não pode correr dois tipos de água ao mesmo tempo. O rio precisa “escolher” se vai correr água doce ou água amarga. São sempre as escolhas que moldam quem somos. São sempre as escolhas que nos fazem perder outras escolhas. São as escolhas que traçam os caminhos da nossa vida.

O que define a escolha

Diante da possibilidade de escolher entre 12 pedaços de pudim, olhe bem, planeje bem, perceba bem — o melhor que puder. Mas tenha em mente: não será o melhor pedaço ou o pior pedaço. Será apenas um pedaço de pudim. O que de fato decidirá se a escolha foi razoavelmente boa ou ruim será como eu lido com ela, o que ela produziu, e o que eu faço com os resultados.

Fique de olho nos pedaços de pudim. Eles têm muito a ensinar. Seja pela questão do desejo, pelo término (momentâneo ou total) do prazer de comer pudim ou pela metáfora das possibilidades de escolha.

A única coisa que tenho em mente nesse momento de desejo de pudim é: pelo menos, que eles sejam de leite condensado.

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 21/04/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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