uma reflexão sobre sentir-se mal quando é presenteado
Nem todo mundo se sente confortável recebendo presentes. Para alguns, o simples gesto de ser lembrado com algo material pode causar desconforto, vergonha, rejeição ou até culpa. E não tem a ver com ingratidão ou desinteresse — tem a ver com o que um presente representa emocionalmente para quem o recebe.
Receber é se deixar ver
Ganhar um presente pode significar, simbolicamente, ser visto. Alguém pensou em mim, se dedicou, escolheu algo, se organizou para me oferecer. E isso, para quem tem dificuldades com a própria imagem ou com o sentimento de merecimento, pode ser desconcertante. A pessoa se sente exposta, desprotegida, vulnerável.
Quando o afeto pesa
Há pessoas que simplesmente não tiveram exemplos de afeto traduzido em gestos. Cresceram em lares onde não se dava presente, ou quando se dava, era algo mecânico, sem carinho. Não aprenderam que dar e receber pode ser uma troca leve, espontânea e segura. E quando, na vida adulta, se deparam com alguém tentando oferecer algo com genuíno afeto, surge o estranhamento — como se o gesto não fizesse sentido, como se houvesse algo escondido por trás.
Do ponto de vista psicológico, a dificuldade em receber está ligada à autoimagem, à autoestima e à maneira como a pessoa aprendeu (ou não) a se vincular. Receber é se deixar tocar. É permitir que o outro entre — mesmo que só com um mimo. E isso, pra quem nunca teve essa referência, pode ser mais confuso do que bonito.
Não saber lidar também é uma forma de defesa
Rejeitar um presente pode ser uma tentativa inconsciente de manter controle emocional. “Se eu aceito, fico em dívida.” “Se eu agradeço, me torno dependente.” “Se eu recebo, posso perder depois.” O presente passa a representar um risco. E o afeto, ao invés de ser abrigo, vira ameaça.
Dar presentes também pode ser difícil
Curiosamente, quem tem dificuldade em receber, muitas vezes também não consegue dar com leveza. Existe uma cobrança interna para acertar, para causar boa impressão, para não ser rejeitado. Isso transforma o gesto em algo tenso, estratégico. E o que era pra ser carinho, vira obrigação.
A sutileza do gesto está no afeto, não no objeto
Aprender a dar e receber é um processo terapêutico e afetivo. Envolve reconhecer o valor do que está sendo trocado — não o valor do objeto em si, mas do gesto, da intenção, da presença. Um presente nunca é só um presente. É uma tentativa de aproximação, de cuidado, de afeto. E isso, quando bem compreendido, pode ser bonito, leve e transformador.
Eu gosto muito de receber presentes, fica a dica! 🙂
Um abraço e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 23/04/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung