É possível viver sem desejos?

um reflexão importante sobre desejar

Dia de sol, estamos no deserto do Saara. Hidratamo-nos há pouco tempo, há cerca de meia hora. O calor é escaldante — faz 50 °C. A boca seca revela novamente a necessidade de beber um pouco d’água. Olho para o cantil e percebo que já está no fim. O líquido restante já está morno. Não refresca, mas é o que temos no momento.

Com o passar do tempo, a necessidade de beber algo começa a bater forte, quase em desespero. Mais adiante, avistamos o final do passeio: um povoado onde há poços cavados na terra. Finalmente, água fresca! Imediatamente imagino a cena: estou bebendo o líquido precioso sem limites. Afinal, há água em abundância, saciando minha sede rapidamente. Termino a visão com um sorriso no rosto, feliz por realizar aquele desejo tão básico, necessário e visceral. Sede!

Desejos instintivos e sociais

Existem desejos de várias naturezas — alguns mais instintivos, como a sede e a fome, ligados à base da sobrevivência do corpo onde habitamos. É a chamada lei da selva, onde os mais fortes sobrevivem.

Hoje isso está mais escondido. Vivemos, teoricamente, em uma sociedade mais “humana”, organizada, com regras e leis para uma convivência minimamente possível. Mas é quando surge a possibilidade de meu desejo não se realizar que a coisa muda rapidamente.

Morremos menos, hoje em dia, caso sejamos o empecilho para o desejo de outrem se realizar — mas isso ainda acontece. Às vezes, onde todos podem ver; outras, em silêncio. Matamos devagarinho, para que ninguém perceba. Veja o sistema de saúde, os aposentados, a merenda escolar. Todo desvio é fruto do desejo de alguém, que enxerga o desejo do outro como menos importante:
– “Se ele quer viver, é problema dele.”
– “Aposentado tem família, que eles ajudem.”
– “Carne na escola? Um suquinho está bom demais!”

Desejar é se mover

No desejo, há quase sempre uma necessidade de realização, ou ao menos uma predisposição à ação. Desejar implica em movimento, em busca de satisfação, em anular a vontade presente — e isso só acontece quando algo acontece. Ninguém deseja sem, ao menos, fantasiar o objeto do desejo. Primeiro o realizamos mentalmente, para só depois tentar colocá-lo em prática.

Desejei a água no deserto antes mesmo de tocá-la. Somos assim: seres pensantes, sempre a planejar a realização do nosso desejo — para o bem ou para o mal.

O desejo não é sempre bom

Não caia na falácia de que seus desejos são sempre bons. O desejo, na maioria das vezes, aparece sem pedir licença, e toma conta da nossa mente. Quanto mais difícil for realizá-lo, mais potente e invasivo ele parece se tornar.

O que fazer, então?

Desejar, mas se controlar

Não acredito que seja possível viver sem desejos. Até as plantas desejam a luz do sol. Veja o girassol — ele se move para acompanhar o sol do amanhecer ao anoitecer. O mundo é, de alguma forma, movido por desejo.

A questão é: você consegue se controlar diante dos desejos que a vida apresenta?

Se você controla seus desejos, consegue controlar a si mesmo. E acredito que, com isso, será capaz de lidar com os desafios de forma mais saudável, para você e para quem estiver envolvido.

Consegue abrir mão de seus desejos para que outro possa desejar também?
Consegue abrir mão de uma realização para que outro possa se realizar também?
Consegue se proteger das realizações banais, superficiais e imediatistas que alguns desejos apresentam?

Desejar é importante — afinal, a vida é feita de desejos. Mas mais essencial do que desejar é cultivar o controle sobre si mesmo.
Dificilmente a frustração de um desejo o matará, mas realizar todos, sem freio algum, certamente o conduzirá à morte — se não do corpo, de alguma parte vital da existência.

Viva o desejo, viva o controle!

Abraços e fiquem bem.

Rodrigo Bazzan – 06/05/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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