Vencer ou Vencer?

uma reflexão sobre o “vencer”

Uma vez, escutei uma professora me orientando sobre quais batalhas eu deveria lutar. No passado distante, época medieval, é provável que, para a maioria das pessoas — especialmente aquelas com menos posses — a possibilidade de não lutar fosse quase inexistente.
De repente, aparecia um “doido” querendo usurpar suas terras, sua esposa e escravizar seus filhos. Diante disso, a escolha já estava feita: essa batalha eu tenho que lutar!

Lutava-se para se proteger, proteger quem se amava e pelas poucas posses que garantiam o sustento da família. No mais, viviam suas vidas — hoje chamadas de “vidas simples” — no meio do mato, com pouca ambição, embora o desejo de possuir já estivesse presente desde que a sociedade se entende por gente.

O preço de apenas existir

A vida parecia mais concreta: dias de luta, mas também dias de paz. Dias de simplesmente existir.
Sem que alguma nova “onda” ou “moda” surgisse para dizer que aquela forma de vida era fracassada ou sem valor.

Pare e pense comigo: qual é o valor da vida? Quanto você vale? Quanto o outro vale?
Onde estão nossos parâmetros? Qual é a régua que estamos usando para medir isso? Será que ela é realmente nossa ou foi comprada?
A verdade é que compramos essa régua todos os dias — sem perceber.

Simplesmente existir deveria ser uma ideia que nos traz paz. Mas, ao ler isso, talvez você tenha pensado:
“Só isso?”, “Como eu faço isso?”, “Isso é preguiça!”, “Isso não funciona…”

Vivíamos com menos, mas vivíamos mais

Voltando ainda mais no tempo, na pré-história, as pessoas existiam.
Suas preocupações giravam em torno do básico: segurança e alimentação.
Agrupavam-se para se proteger, caçavam e colhiam para se alimentar — e depois… descansavam.

Se estou seguro, alimentado e vivo — estou existindo.
Podia-se brincar, nadar no rio, ver o pôr do sol sob uma árvore milenar (sem motosserras ao redor).
Apenas existir.

Obviamente, a humanidade ficou mais complexa — social e psicologicamente.
Não é mais possível apenas existir: tudo já tem um dono. Uma galinha solta na rua já pertence a alguém.
Você nasce num mundo pronto, com regras, trilhos e poucas escolhas.
A possibilidade de ter algo “seu” vem apenas com dinheiro.

Exista menos e consuma mais

A sociedade vai te mostrar quais batalhas deve lutar — não em seu benefício, mas para fortalecer o sistema econômico.
E não o sistema todo, apenas os “mais espertos”.
Você? Terá que se contentar com a ilusão de liberdade e com a busca pelo melhor “qualquer coisa”.

Vão te convencer de que você é insuficiente.
Vão te tornar menos pensante.
Você será dominado pela comparação, consumido pela inveja.
Sua identidade será frágil.
E qualquer pensamento fora do padrão será rapidamente sufocado por uma frase assassina:
“A vida é assim mesmo.”

Fizemos isso.
Nos empilhamos num sistema regido pelo desejo, pela inveja e pelo egoísmo.
Vivemos um vazio existencial…
Mas temos drogas para anestesiar qualquer sofrimento. Tristeza? Aqui não!

O que fazer?

Que tal existir?

Escolha suas batalhas — de preferência, as que favoreçam sua existência.
Foque mais em si e menos no vizinho.
Afaste-se das mentiras sobre dinheiro e felicidade.
Conheça-se profundamente.

Sócrates estava certo: “Conhece-te a ti mesmo.”
Quando me conheço, sei o que me faz existir: comida, segurança, apreciação, descanso.

Veja se algum desses pontos está em falta. Talvez seja ele que tem te deixado inseguro, no automático e… com fome — fome de existir.

Escolher batalhas não tem a ver com falta de coragem.
É saber o que merece sua energia.
Ninguém luta bravamente com uma pedra no sapato. A gente para, tira o sapato, tira a pedra… e segue.

Não seja tolo. Escolha bem suas lutas.
E quando escolher, lute com bravura.
Mas, no tempo restante… exista.

Abraços e fiquem bem.

Rodrigo Bazzan – 07/05/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

Botões Alinhados