as Mudanças que só acontecem quando a dor incomoda o bastante
Meu time está jogando, 1 x 0 no placar, estamos à frente, classificados para a final do Campeonato Paulista. O empate nos favorece, então estamos em perfeita vantagem. São 30 minutos do segundo tempo, tocamos a bola “como quem não quer nada”, o jogo e o título estão no “papo”, é só manter o status quo atual.
De repente, um pequeno erro de passe, o time adversário, não tendo mais nada a perder, se lança para o contra-ataque, cruza a bola na área, o zagueiro se embanana todo e deixa a bola para o atacante do time adversário marcar, é Gol!
Bem, ainda estamos com vantagem, 1 x 1, o empate “é nosso”. Percebo meu time tenso, a alegria anterior dá lugar à preocupação, o toque de bola fica meio esquisito, com erros bárbaros revelando o nervosismo. O time adversário, agora empolgado, faz uma enorme pressão para conseguir reverter o placar. Estamos há 4 minutos do final da partida mais os acréscimos.
A virada do adversário
Lá vem ela de novo para dentro da nossa área, uma falta no meio de campo e o zagueiro joga lá no meio do rebuliço tentando mais uma vez a sorte em meio ao desespero, o zagueiro tira, ela quica em direção à entrada da área, o jogador adversário acerta um chute poderoso, e ela vai lá onde a “coruja faz seu ninho”, é Gol!
A torcida adversária explode em alegria! O inimaginável acontece, uma virada histórica está prestes a se consolidar. Observo meu time, todos de cabeça baixa, com o sentimento de derrota estampado no rosto, estamos nos acréscimos e a bola está sendo levada novamente para o centro do campo para reiniciar a partida, são os momentos finais.
Nesse meio tempo, observo um jogador em específico, está irado com a situação, grita com todos, chacoalhando-os pelos braços para que se animem, para que não aceitem a derrota dessa forma sem lutar. Na leitura labial é possível identificar o tamanho do descontentamento, a dor que sente e o desespero de que aquela situação se consolide, de encontrar-se com a derrota. Grita com muitos palavrões.
O time então se junta no meio-campo, se une novamente e se prepara para recomeçar a partida, tocam a bola para o goleiro e correm todos para dentro da área adversária, o time adversário recua, é possível ver o formigueiro se formando em frente ao goleiro do time em vantagem. A bola é lançada com toda força, um empurra-empurra sem fim, de repente ela começa a descer, e encontra a cabeça de um jogador, ele cabeceia e ela vai direto para o gol! Empate!
O estádio explode!
A metáfora da vida
Os jogadores de ambos os lados ficam sem acreditar, uns lamentando o empate e consequentemente a perda do título, e outros comemorando como se não houvesse amanhã. Para esses, o estado de dor foi capaz de realizar uma transformação, de uma possível e quase certa derrota para uma vitória inigualável, inenarrável, esplendorosa, daquelas que só um corinthiano conhece. Parece que com a gente, as coisas só acontecem dessa forma!
Mas a vida é assim mesmo. Se está tudo bem, dificilmente algo novo entrará em nossa mente para que haja mudança, a gente fica tocando a bola de um lado para o outro esperando o jogo acabar. E aí, de vez em quando, a vida nos surpreende com “um gol adversário”, deixando o jogo um pouco mais complicado, acendemos uma luz de alerta, mas continuamos seguindo sem querer mexer no time ou na estratégia do jogo.
É só quando a coisa fica insustentável que a mudança acaba ocorrendo. Felizmente, não somos como os sapos que morrem cozidos na água sem perceberem. Em nós, quando a água “queima a pele”, ou quando, como diz o ditado, “bate na bunda”, isso força inevitavelmente o movimento de mudança.
O problema é que, quando esperamos esse estado de inevitável mudança aparecer para então nos forçar a mudar, o trabalho acaba sendo muito mais oneroso e desconfortável do que se fôssemos percebendo que a água estava esquentando e tomássemos uma ação preventiva quanto a isso. Haverá muito mais dispêndio de força e energia se comparado a algo realizado com planejamento e comprometimento.
Ganhar um jogo de virada é lindo, inesquecível, mas nem sempre acontece! A vida não é storytelling, um conto de fadas!
Você não precisa ser o Rambo e lutar contra um batalhão inteiro sozinho. Se a “coisa” estiver pegando, se estiver doendo, pare, pense, planeje e até faça uns curativos pra ver se resolve. Mas não chegue ao ponto de morrer para poder tomar uma decisão. Às vezes, ganhar um jogo de virada não acontece!
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 12/05/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung