reflexão sobre O valor de olhar para dentro
Tenho certeza de que você já passou por algo semelhante: procurar algo que, no momento, se torna importante e não conseguir encontrar! Pode ser a chave do carro, a chupeta da criança que não para de chorar porque não consegue ficar sem ela, aquele documento para pagar no mesmo dia, que ontem estava por cima da mesa, mas hoje, incrivelmente, desaparece como em um passe de mágica! E dá-lhe São Longuinho e seus 3 pulinhos — vale tudo para resolver a situação.
Começa, então, a busca pelo objeto importante. Iniciamos pelos lugares mais prováveis, mas, não havendo sucesso, até os mais improváveis são revistados. Quem nunca procurou até dentro da geladeira a chave do carro perdida, que atire a primeira pedra! No desespero vale tudo — a gente começa a duvidar da própria sanidade mental.
O cansaço quase sempre se torna o culpado, principalmente quando a chave realmente está dentro da geladeira. Depois do alívio por encontrar, normalmente ri-se da situação — se não no exato momento, logo depois com certeza será uma boa história para contar.
Sexo masculino e a busca terceirizada
Percebo que essas situações perseguem principalmente o sexo masculino. Facilmente nossos objetos somem e apelamos para a esposa ou a mãe:
“- Cadê tal coisa que eu coloquei aqui? Você mexeu?”
E com superpoderes, elas se levantam, vão ao mesmo local onde estamos procurando, materializam o objeto diante dos nossos olhos e ficamos com cara de “ué”! Sexo feminino e seus poderes mágicos! Procurar dá trabalho! Acho que essa é uma questão importante a tratar: procurar gera desconforto, consome energia e, principalmente, gera frustração.
Nem tudo está onde se espera
Quem nunca ouviu essa frase? “Procurei, procurei e achei só no último lugar onde eu nem imaginava que estaria!” Li esse exemplo em um livro do Mario Sérgio Cortella. Achei o pensamento engraçado. Claro que a gente encontra sempre no último lugar — ninguém continua procurando algo depois de ter encontrado. Logo, o último lugar é justamente onde você encontrou.
Mas o mais importante do que descobrir onde estava é a persistência até encontrar o objeto perdido. Nem sempre é fácil, na maioria das vezes não é nem um pouco prazeroso e é demorado.
Normalmente o que se deseja procurar está “escondido”, “camuflado” aos sentidos. Refiro-me aqui exclusivamente aos objetos tridimensionais, identificados por nossos sentidos: visão, audição, olfato e tato. Achei melhor não colocar aqui na lista o paladar — pelo menos nunca vi alguém procurando algo com a língua! Bom, deixo a imaginação a cargo de cada um.
A busca mais profunda: o que está dentro de nós
Há outros “objetos” que estão muito mais escondidos. Não são tridimensionais e existem somente no mundo das ideias. São absurdamente mais complexos e, apesar de não materiais, se materializam no corpo, demonstrando sua existência. Alguns em comportamentos, outros exacerbando sentimentos e ainda outros em forma de doenças psicossomáticas — mesmo diante da inexistência de algum agente biológico que cause uma patologia. Em suma, nos deixam doentes por nós mesmos. Você já deve ter ouvido falar sobre doenças autoimunes.
Em nossa mente, os “objetos” ficam perdidos lá dentro. Às vezes nem temos ideia de que eles existem, mas estão lá, interagindo com nosso dia a dia — às vezes para o bem, outras vezes para o mal. Nessa segunda opção, há sempre um incômodo, um: “Por que isso está acontecendo?” E, diante dessa incógnita, começamos a busca, cuja direção será sempre “para dentro”, dentro de si mesmo.
Essa busca dói! Nunca é fácil se deparar com eles, os tais “objetos perdidos”, porque, para encontrá-los, teremos que refazer o caminho, entender sua composição, como se formaram e por que estão nos fazendo sentir e agir de uma forma que não nos agrada. Eles não têm forma e são únicos — cada um com o seu. Às vezes com a mesma “receita” de formação, mas completamente diferentes.
Mas, para que seja possível “corrigi-los” — ou melhor dizendo, ressignificá-los — primeiro é preciso estar cara a cara com a história, o percurso e sua formação.
E uma coisa pelo menos nós temos certeza: sabemos onde ele está, o tal “objeto” perturbador, o espinho na carne. Ele está aqui dentro, esperando para ser encontrado. A resolução desse estado indesejado está intimamente ligada ao quanto você terá coragem de seguir em frente procurando — mesmo que não seja fácil, doloroso e cansativo.
A boa notícia é que, ao encontrá-lo, a coisa se inverte: você o possuirá e não mais ele a você! E isso fará toda a diferença.
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 13/05/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung