uma reflexão sobre sobre continuar
Tem dias que você acorda e se pergunta: “pelo amor de Deus, pra quê tudo isso?” A rotina pesa, os compromissos não inspiram mais, os sorrisos parecem forçados e o tempo vai passando como quem não quer conversa. O “bom dia” é só mais uma das frases sem sentido, uma formalidade, mas no final parece que não significa mais nada, é como se a vida estivesse em preto e branco, ou melhor, cinza, e você no meio dela tentando entender onde perdeu o controle da paleta.
E aí começa a comparação: fulano está bem, ciclano evoluindo, e você ali, parado, meio desencaixado do mundo, meio invisível até pra si mesmo.
A sensação de estar andando em círculos
Essa sensação de estar perdido é mais comum do que parece. Mas ninguém fala disso. Todo mundo posta sorriso, vitória, conquista. Mas ninguém mostra o vácuo que dá às três da tarde, quando bate a dúvida se algum dia você vai se sentir realmente bem de novo. Por muito tempo vivi assim, anos se passaram até que alguma cor brotasse novamente. Era como se, de vez em quando, eu conseguisse sair de uma piscina na qual estava me afogando e segurar na beirada para respirar um pouco. Na maior parte do tempo, lá estava eu, lutando para não afundar.
A pergunta que ecoava era: por que tudo isso? Será que havia nascido para somente viver daquela forma, triste, deprimida e cinza? Ia chegar o momento em que tudo aquilo culminaria, sem dúvida, em algo não desejado, nem por mim, nem por ninguém. Mas parecia o único caminho para simplesmente parar! Parar tudo aqui e mudar a cor para preto, finalmente, tão escuro quanto fosse possível. A vida era sem sentido!
E é aqui que a gente se engana
Não é porque você não vê sentido, que ele não existe. Às vezes o que falta não é um propósito, mas descanso. Às vezes o problema não é você, é o quanto você tem exigido de si mesmo, sem se permitir parar pra respirar. Adicione também a esse “molho” da receita o autoconhecimento — ele será indispensável para ponderar muitas coisas e encontrar verdades e mentiras no decorrer da caminhada.
Nem sempre a resposta vem bonita
O sentido da vida não vem pronto, embrulhado num papel dourado. Às vezes ele vem num olhar, num café em silêncio, numa caminhada sem pressa, num texto que você não esperava ler (tipo esse aqui). O sentido vem quando você menos força. Quando para de se cobrar ter tudo resolvido aos 30, 40, 50 anos. Para mais informações sobre isso, procure por Individuação, de Carl Gustav Jung, que se refere a tornar-se indivíduo. Não é fácil nem gostoso — o indivíduo é formado por todas as suas características, inclusive aquelas das quais você abomina —, mas olhar para essa sombra é indispensável para se conhecer e se aceitar. As mudanças virão depois, para o que desejar, regadas de amor por si mesmo.
A vida não é uma linha reta. Ela é torta, confusa, linda e injusta ao mesmo tempo. E mesmo quando você não vê saída, ela segue, e seguirá mesmo sem você. Não perguntará: “Onde será que o Rodrigo foi parar?” Porque é a gente que precisa saber o que fazer com ela, qual o sentido dar, a quem amar, quais serão nossos princípios, nossa índole, e fazer com ela o que bem entender. Por quê? Porque ela é sua. Levante-se e responsabilize-se.
Você ainda está aqui. E isso diz muito.
Não subestime o simples fato de levantar da cama, de continuar tentando, mesmo com o peito vazio. É resistência. É humanidade. E é justamente nesse espaço entre o caos e a esperança que o novo começa a nascer. Ninguém gosta nem suporta estar nesse estado por muito tempo. Eu precisei de ajuda para sair e não me arrependo nem um pouco de ter estendido o braço pra alguém me puxar daquela piscina. Fica apenas aquele sentimento de “Por que esperei tanto?” Acho que era por preconceito, por me achar capaz de sair sozinho, mas perdi um tempo valioso — e ele não voltará mais.
Também não há o que fazer com o “leite derramado”, com o tempo perdido. Ficar preso ao passado dessa forma é não viver o presente — e isso eu tenho aprendido muito bem! Falho às vezes, com certeza, mas levanto e caminho adiante, um passo de cada vez e uma versão melhor que a outra de mim mesmo. A versão que EU decidi ser, não pelos outros, mas para mim mesmo.
Você pode não saber o que quer agora. Pode estar cansado, desanimado, sem brilho nos olhos. Mas acredite: isso passa. Porque o sentido, às vezes, não está lá fora, mas sim aqui dentro! Está em continuar, mesmo sem saber direito ainda o porquê. Está em olhar para si mesmo com misericórdia, amor — não pena e vitimismo. Em pedir ajuda, se necessário, deixar o orgulho de lado, o preconceito, e saber que tempo de vida não pode ser recuperado, mas pode se evitar de ser perdido — e aproveitado da melhor forma possível! De qual forma? Da forma que VOCÊ achar melhor!
Um abraço e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 20/05/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung