uma reflexão sobre as dificuldades envolvidas em uma construção.
Quando recebemos um presente, o embrulho é o primeiro que sofre! Rasgamos com toda a felicidade do mundo, como se não houvesse amanhã, quanto mais rápido melhor. Tudo bem, foram feitos para isso mesmo, para quebrar a ansiedade instantânea que nos acomete com a surpresa e revelar o tão desejado objeto. Mas você já observou o trabalho que dá embrulhar? Criar as dobras, colar com a fita adesiva, fazer aqueles lacinhos, passar a tesoura para que a fita que o enfeita fique encaracolada… Embrulhar é uma arte, e quem sabe, faz bonito!
Derrubar é rápido. Construir exige tempo
Outro dia, passei por uma rua onde uma casa antiga estava sendo demolida. Era de manhã ainda, umas 08h00. À tarde, ao retornar para casa, fiz o mesmo caminho e a casa já não existia mais. O que antes, em algum momento, pode ter sido um lar cheio de histórias virou entulho. Pó, barulho, marretas, máquinas — e tudo desapareceu como se nunca tivesse existido.
Reformar é caos antes de ser beleza
Agora pense em uma reforma. Quem já reformou uma casa sabe: é sujeira, bagunça, imprevistos, atraso, custo que triplica. Troca o encanamento, descobre que a fiação está ruim, troca o piso e a parede cede, infiltração que nunca existiu brota do fundo das trevas. É poeira por semanas. Não tem glamour, não tem atalho. E quando finalmente termina, só quem passou pelo processo sabe o quanto foi difícil.
Relações também precisam de manutenção
Assim é na vida! Destruir, ignorar, sempre será mais fácil. Algumas “marteladas” aqui e ali e tudo se vai. É só passar um tempo ignorando a dor do outro, ao alcance de um sorriso, logo ele se vai também. A manutenção se faz necessária, caso contrário a “casa”, hora ou outra, despenca.
Destruir uma relação, por exemplo, pode ser questão de um dia. Uma palavra maldita, um gesto impensado, uma traição, um abandono. Pronto, está feito. Mas tente reconstruir isso. Tente recuperar a confiança, curar uma ferida, fazer o outro voltar a sorrir com sinceridade. Dá trabalho. Muito trabalho.
Curar exige coragem e força emocional
É fácil desistir. Fácil largar, ignorar, sair batendo porta. Difícil é manter, ajustar, ceder, pedir desculpa, recomeçar. Difícil é encarar a bagunça e decidir limpar. Difícil é não destruir.
Curar uma dor interna também é assim. Tem gente que guarda tanta coisa mal resolvida que vive de forma amarga e destrutiva. Explode fácil, julga todo mundo, sente inveja de quem está construindo algo bonito. Mas curar isso exige esforço. É mexer no que está escondido, suportar o incômodo, lidar com o que não se quer ver. Requer paciência, persistência e, muitas vezes, ajuda.
Destruir é coisa de segundos. Construir sempre demora e é tarefa de coragem. E, olha, hoje em dia parece mais rara do que ouro.
Por isso, da próxima vez que pensar em largar tudo, jogar fora, sair quebrando, pense também no trabalho que deu pra chegar até ali, seja o seu trabalho ou do outro. Veja se vale mesmo a pena. E se decidir continuar, entenda: vai doer, vai cansar, mas também vai valer. Porque construir é para quem tem força. Curar é para quem tem coração.
E no fim, é isso que sustenta a vida: gente disposta a fazer o trabalho que dá.
Rodrigo Bazzan – 09/06/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung