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A tampa da minha panela.

/ Amor, Angustia, Blog, Crescimento, Escolhas, Felicidade, Geral, Pessoa, Relacionamentos, Ser, Verdade, Viver / By Rodrigo Bazzan
reflexão sobre relacionamento conjugal

Quando eles conheceram, tudo parecia perfeito. Era aquela fase mágica da paixão, palavra originária do latim “passio”, que significa “sofrimento” ou “padecimento”, era aquele “morrer de paixão” em que tudo encaixava, tudo combinava, tudo era risada e desejo. Defeitos o que é isso? Não existiam, até a flatulência feminina tinha cheiro de jasmim, o ronco do namorado em nada atrapalhava, ela adorava vê-lo dormindo, e quando acordava com o barulho da “retroescavadeira”, sorria: ” – Ele está muito cansado, tadinho!”

Passado o tempo, veio a convivência, ainda não moravam juntos, e a “coisa” foi se tornando rotineira, o ronco de “canseira” já não era agradável e flatulência feminina, aquela que fica lá armazenada por dias por conta da constipação intestinal, quando vinha era motivo de reclamação: ” – Nossa amor, pelo amor de Deus você está podre, quanto tempo faz que você não faz cocô?”. Ainda se amavam, mas o brilho da paixão já não era tão intenso como no inicio.

Perfeitamente normal em todos os relacionamentos! Sem paixão não há interesse, não há começo, não há desejo. É como um foguete que precisa chegar ao espaço, a paixão é o start inicial para que ele vença a gravidade e então chegue ao espaço, sem toda aquela potência inicial, a paixão move, é bem vinda, mas ela não pode, não deve durar para sempre. Se isso acontece, se a paixão não se acaba, não há espaço para um relacionamento maduro, não haverá espaço para o amor verdadeiro.

É bom que ela exista, ela é necessária, mas tem prazo de validade, algumas duram mais que outras. Difícil dizer se isso é bom ou ruim, talvez o resultado pós paixão possa ser analisados para então chegar a uma conclusão como por exemplo: “Era só paixão, depois eu percebi que não valia a pena”.

A paixão indo embora

Não estavam mais tão apaixonados como na fase inicial do namoro, mas ainda se amavam. Conviveram o tempo necessário para se conhecerem minimamente, e depois, decidiram então pelo casamento. Com o passar dos anos, as coisas começaram a se tornar preocupantes. As brigas antes quase inexistentes se tornaram rotineiras. As contas, os filhos, os silêncios a falta de cuidado mutuo começaram a pesar e de repente, o que era encanto virou irritação, o que era charme virou defeito, e o que era parceria começou a parecer prisão.

” – Alguém me salve disso por favor!” gritavam ambos silenciosamente aos quatro ventos, bastava apenas alguns segundos para perceber que aquela relação estava doente e precisando de certos cuidados imediatos.

A vida a dois é assim mesmo. Quem pensa que amar alguém ou estar apaixonado basta, está fadado à frustração. Porque paixão é só o começo, o amor vem depois e não tem fim em sua formação, precisa ser cultivado dia a dia. Amar dá trabalho, exige esforço, comunicação, paciência, renúncia e, acima de tudo, responsabilidade afetiva.

O problema é que muita gente entra num relacionamento procurando “sua outra metade”, como se fosse alguém que vai te completar, curar, resolver os seus buracos. Mas ninguém tem obrigação de tapar as faltas do outro. Relacionamento não é muleta. É construção. E construção exige uma base sólida, as vezes “a casa cai” e precisamos recomeçar dos alicerces novamente, ponderar os erros na estrutura antiga e reconstruir, as vezes do zero.

Preste atenção nisso

Se você entra num relacionamento esperando ser salvo ou completo, o risco de cobrar demais do outro e se frustrar é enorme. A relação vira um campo de expectativas irreais, onde o parceiro é pressionado a ser tudo o que você gostaria – e isso cansa. Piora quando os dois fazem isso ao mesmo tempo.

Por isso, se pergunte: o que eu espero de um relacionamento? E mais: o que eu ofereço?
Relacionamentos saudáveis se sustentam em reciprocidade, em esforço conjunto. Não adianta só um tentar. Casal é equipe. E equipe que não joga junta, perde junto.

A vida a dois vai ter fases difíceis. É inevitável. O cotidiano pesa, as opiniões se chocam, o desejo oscila, e às vezes até o carinho desaparece temporariamente. Nessa hora, muitos se afastam, se calam, se escondem atrás de celulares e distrações. Mas a saída é o enfrentamento. É o diálogo, mesmo que duro. É a escuta ativa. É, se necessário, buscar terapia de casal.

E não, buscar terapia não é sinal de fraqueza. É sinal de maturidade. É entender que algo precisa de atenção antes que quebre. Que existe amor ali, mas ele está coberto de mágoas, ruídos e desencontros. A terapia ajuda a reorganizar. Ajuda a lembrar por que começaram, e mais importante: se ainda vale continuar.

O que constrói uma relação boa?

Admiração, amizade, desejo, respeito e objetivos em comum. Casais que funcionam bem não são aqueles que nunca brigam, pelo contrário, são os que conseguem atravessar os conflitos e voltar mais fortes. Que sabem ceder sem se anular, que sabem cobrar sem humilhar, que sabem pedir perdão de forma genuína sem medo de se sentirem inferiores e recomeçar.

Relação boa é quando um olha pro outro e pensa: “não preciso de você, mas escolho estar com você”. É quando dois inteiros decidem caminhar juntos. Não metade e metade, mas dois completos que se somam.

Um “paraíso” sem portas ainda é uma prisão, se você entende que sua vida é assim, um lugar maravilhoso, mas é obrigado(a) a ficar porque não existem saídas, pense um pouco a respeito. O paraíso uma hora ou outra pode se tornar um inferno, e não havendo portas, estará fadado a ficar mesmo sem querer.

Não tem nada a ver com “Há mas vou pular do banco quando ele estiver afundando? isso é ser covarde!” Não é sobre isso, é sobre liberdade! Se fico, fico porque quero ficar, esteja bom ou ruim. As portas devem sempre existir, em qualquer situação da vida. A casamentos que são uma eterna gaiola, com agua, comida, solzinho pela manhã, vitaminas para as penas das asas, para ficarem bonitas e viçosas, mas que nunca, nunca voarão pelo céu em liberdade. Fadadas a viver em uma prisão, mesmo podendo voar, o que nesse mundo em que vivemos, é a característica mais linda e desejada por todos animais. Liberdade!

E eles como ficaram?

E o Casal? Que fim deu aquela estória?

Depois de quase se separarem, decidiram tentar a psicoterapia. Foi difícil no começo, doeu. Muita coisa entalada, muito ressentimento, muito orgulho pra engolir. Mas aos poucos, foram se reencontrando. Aprenderam a se ouvir de verdade. A respeitar os silêncios e os limites. Redescobriram o que os unia e aparentemente, aprenderam muito com os erros do passado.

Hoje não dizem mais “minha outra metade”. Dizem: “meu parceiro”, “minha parceira”, meu amor! Porque entenderam que ninguém completa ninguém. Mas quando dois inteiros se juntam, podem construir algo muito maior do que seriam sozinhos.

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 13/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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