uma reflexão sobre a “guerra”
Segunda-feira, a discussão começou com uma palavra atravessada no café da manhã, todo mundo meio que dormindo ainda. Uma crítica boba, dita sem pensar. O outro, que já estava cansado pelo trabalho em casa no final de semana, respondeu atravessado. Em minutos, o clima já era de guerra. Olhares cortantes, silêncio agressivo, um levanta e sai da mesa “batendo” o pé e o ressentimento sendo alimentado em fogo alto. No fim, ninguém venceu. Só ficaram o cansaço e a mágoa, e tudo por uma bobagem.
É assim que muitas guerras pessoais começam: de forma quase invisível, na grande maioria das vezes por bobeiras. Um orgulho ferido, uma palavra mal colocada, um gesto mal interpretado. E pronto, a coisa começa, dá-se início à batalha. A diferença é que aqui, não tem vencedor. Mesmo quem “ganha” sai machucado.
Pior ainda quando a guerra é literal. Pense em uma guerra real: soldados que nunca se viram, que não se odeiam, que nem sequer sabem ao certo o porquê de estarem ali, se matam por conta da decisão de líderes egóicos, orgulhosos, inflamados. A guerra é terrível e todos, mesmo os que não estão diretamente envolvidos, pagam o preço. Nenhum deles volta inteiro, mesmo quem volta vivo carrega fantasmas para sempre.
O problema do ego inflado
Esse é o retrato de quando deixamos o conflito crescer mais do que deveria. Quando deixamos o ego falar mais alto do que a razão, quando o medo de ser “derrotado”, consumido, bate à porta, quando não conseguimos parar e perguntar: vale mesmo a pena?
Na vida, é preciso escolher bem as lutas que valem travar. Nem toda provocação merece resposta e nem todo ataque precisa de contra-ataque, às vezes, recuar é sinal de inteligência, não de fraqueza ou ainda covardia.
Exemplos de guerras desnecessárias estão por toda parte:
– A briga no trânsito que vira tragédia.
– A discussão em família que afasta por anos.
– O casamento que vira campo minado por orgulho ferido.
– A competição no trabalho que destrói carreiras e amizades.
Questão de vida ou morte
E o que fazer quando o conflito é inevitável?
Em alguns momento é preciso confrontar, portando, costumo dizer que tudo tem o seu lugar, inclusive agir com violência. Quando existe a necessidade de se proteger ou proteger alguém de algo que poderia lhe roubar a vida, tenha coragem e lute, mesmo se for para perder. A violência como forma de defesa pode e deve ser aplicada.
Existem também casos onde há abuso, desrespeito, injustiça. Algumas lutas precisam ser enfrentadas pela nossa saúde mental, por segurança ou dignidade, nesses casos, o ideal é buscar estratégias saudáveis:
– Diálogo franco e direto.
– Terapia individual ou de casal.
– Mediação com um terceiro imparcial.
– Limites firmes e claros.
– Afastamento, se necessário, quando a paz não é possível.
A gente sempre perde
Psicologicamente, o que mais desgasta não é o conflito em si, mas a forma como ele é conduzido. Muitos vivem em guerra constante com os outros e consigo mesmos. A mente vira campo de batalha, cheia de pensamentos hostis, de culpas, de cobranças. Nessa guerra interna, também se perde muito: sono, alegria, saúde, relacionamentos.
Na próxima vez que algo te provocar, respire. Pense. Reflita:
Isso vale mesmo a briga? Estou lutando para resolver ou para vencer? Se eu “ganhar”, o que eu realmente ganho?
A paz não é covardia. Ela exige maturidade, às vezes custa caro, mas a guerra custa muito mais.
Rodrigo Bazzan – 16/06/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung