O filho do tanto faz!

uma reflexão sobre a necessidade de estar presente na vida dos filhos

Léo tinha seis anos e adorava desenhar. Passava horas com seus lápis de cor, rabiscando mundos, animais, aviões, criando personagens e inventando histórias. Cada desenho era uma tentativa de mostrar quem ele era. Mostrava-se correndo pela floresta com medo, alegre velejando em um enorme barco pirata, em meio a duelos entre o bem e o mal, fazia do jeito que sabia, o melhor que podia, porque no fundo, tudo o que ele queria era que seu pai visse.

Naquela tarde, fez um castelo. Usou azul no céu, amarelo nas torres, desenhou até uma bandeira com a letra “L”. Correu animado até a sala onde o pai estava no celular. “— Pai, olha meu desenho!”, disse com brilho nos olhos, entregando a folha. Sem tirar os olhos do aparelho, o pai respondeu seco: “— Hum…” O pequeno, na tentativa de chamar a atenção do pai, ainda tenta explicar o desenho, que a letra era do seu nome, que aquele castelo era dele, mas nada do pai largar o maldito aparelho.

Léo ficou parado alguns segundos, esperava mais. Um sorriso, um olhar, um elogio, uma pergunta que fosse sobre o castelo. Mas não veio nada, só o “hum” mesmo. Frustrado, deixou o desenho com o pai, que logo jogou-o de lado no sofá, sendo encontrado novamente pelo garoto mais à noite, que com tristeza o amassou e jogou fora. “— Meu pai não gostou!”

Sempre insistindo

No dia seguinte, tentou de novo. Dessa vez, desenhou os dois juntos num campo de futebol, os nomes em cima das cabeças, o sol sorrindo. O pai, novamente, disse: “— Hum…” E voltou pra TV. Na terceira vez, Léo não correu. Caminhou devagar, sem tanta empolgação. Mostrou o desenho já meio amassado. O pai nem ergueu os olhos. “— Hum…” novamente.

Você poderia pensar que isso tenha sido a gota d’água, mas não! Crianças não desistem tão facilmente, os pais são o objeto de desejo mais forte na infância, então, ainda que haja indiferença, até mesmo que sejam repudiadas de certa forma, ainda assim, sentem a desesperadora esperança de que em um momento ou outro o pai ou a mãe serão “transformados” e então, lhe darão atenção.

Mas necessariamente as crianças acabam crescendo e, em dado momento, Léo guardou os lápis numa gaveta e não desenhou mais. Ele não ficou bravo, não chorou, não gritou. Só aprendeu que talvez mostrar quem ele era… não interessava tanto assim. E assim, pouco a pouco, foi parando de tentar ser visto.

Não há dor maior para uma criança do que sentir-se invisível para quem deveria ser seu espelho. Um filho pode até suportar um pai autoritário demais, que cobra e exige. Pode também se adaptar a um pai liberal, que dá espaço demais. Mas um pai ou uma mãe indiferente, que não vê, não repara, não reconhece… isso é devastador.

Somos seres sociais. Desde o nascimento, a criança precisa de alguém que a olhe, que a confirme, que a nomeie. O bebê não sabe que existe até que o outro o reconheça como alguém. Esse reconhecimento é o primeiro tijolo da construção da identidade. Se ninguém confirma que você está ali, você cresce duvidando da própria existência.

Não ser visto é não ser.

A criança que vive em um ambiente de indiferença vai criando formas de chamar atenção. Seja ficando doente, tendo comportamentos desafiadores ou se retraindo completamente. Ela tenta, de algum jeito, fazer com que alguém a veja. Quando nem isso funciona, ela começa a morrer por dentro. E essa dor vai sendo carregada para a vida adulta.

A psicologia já mostrou que não é só o afeto que importa. O simples fato de ser percebido, de alguém olhar e reconhecer sua presença, já é terapêutico. Isso vale para todos nós. Basta lembrar da sensação de dizer um “bom dia” e não ser respondido. Dá raiva, não dá? É como se o outro estivesse dizendo: “Você não existe para mim.” Agora imagine sentir isso todos os dias, dentro da sua própria casa, vindo das pessoas que você mais precisa.

É por isso que filhos com pais indiferentes têm tanto sofrimento interno. E mais: costumam crescer com autoestima frágil, dificuldades nos relacionamentos e uma busca incessante por aprovação, como se ainda estivessem tentando provar que merecem existir.

O olhar valida, o toque confirma e a escuta constrói.

Preste atenção nisso.
Você não precisa ser um pai ou uma mãe perfeita. Isso não existe. Mas precisa estar presente. Presença não é só física, é emocional. É perguntar como foi o dia, é olhar nos olhos quando fala, é elogiar uma conquista, é corrigir com respeito, é escutar com interesse. Tudo isso diz ao filho: “Você importa. Eu vejo você.”

Ignorar, tratar com frieza, só estar presente para criticar ou ironizar, tudo isso comunica uma mensagem clara e destrutiva: “Você não tem importância.” E ninguém sobrevive bem a isso.

Como mudar esse cenário?

– Comece olhando mais para o seu filho, de verdade.
– Faça perguntas abertas, escute sem julgar.
– Valide os sentimentos dele, mesmo que não concorde.
– Evite silêncios frios ou ausências prolongadas sem explicação.
– Esteja lá, principalmente nas horas simples. É ali que o vínculo se forma.

Se você teve pais indiferentes, sabe bem o quanto isso marca. Mas não precisa repetir. Pode fazer diferente. Pode aprender a olhar, a estar, a sentir junto. Não é fácil para quem nunca teve isso, mas é possível. Às vezes, com ajuda profissional, com esforço consciente, com vontade de romper o ciclo.

Porque filho não quer pais perfeitos, mas pais que lhes amem, pais que no movimento da vida digam “— Estou te vendo, filho(a)!”

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 17/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

Botões Alinhados