Já acabou “Jéssica”?

um reflexão sobre os “gritos” de não estou feliz com isso

Tem dias que a gente está em algum lugar, uma reunião, um compromisso, uma aula, até mesmo num encontro, e pensa: “Tomara que acabe logo.” Em muitos casos é só cansaço, desconforto, ou até tédio. Mas e quando esse pensamento começa a surgir com frequência? E pior: quando não é mais só sobre o evento, sobre um momento mas, sobre a vida? “Tomara que a semana acabe logo.” Depois “Tomara que o ano passe logo.” Até que, no fundo da alma, sem dizer em voz alta, alguém pensa: “Tomara que TUDO acabe logo.”

Esse tipo de pensamento merece atenção.

O desejo velado de fim

Existe um desejo silencioso, muitas vezes inconsciente, de finitude. Um sentimento de que viver não vale tanto assim: “Porque tudo isso?” ou “Pra que tudo isso?”. Não é necessariamente querer morrer, mas também não querer continuar vivendo do jeito que está. É mais um “não aguento mais” do que um “quero morrer”. Mas o efeito psicológico é o mesmo: a alma vai se apagando, e aos poucos vamos morrendo, evento por evento, ano a ano, dia após dia.

Do ponto de vista psicológico, isso costuma aparecer em quadros de exaustão emocional, depressão leve ou moderada, apatia profunda e, às vezes, até como um traço existencial em pessoas que nunca encontraram um real sentido para viver. A vida vai virando um ciclo de repetições sem sentido. Os dias passam sem cor, sem entusiasmo, e a única expectativa é que passem rápido. o mais rápido possível.

A pressa pelo fim é um pedido de socorro

A repetição do “tomara que acabe logo” é um pedido sutil de mudança. Algo está desconectado. O trabalho pode estar sem propósito, as relações esvaziadas, a rotina pesada demais. Às vezes, o corpo continua funcionando no automático, mas o “coração”, entre aspas por conta do sentido emocional, já pediu demissão faz tempo.

A gente vive esperando que acabe:
– A segunda-feira
– O trânsito
– O mês das contas
– O casamento infeliz
– O ano difícil

E se não tiver nada depois disso? O que sobra? Porque uma hora ou outra as coisas se acabam, tudo tem um tempo determinado. A vida que a gente espera passar logo é a única que a gente tem. Única porque, ainda que você seja um reencarnacionista, que acredite que viverá ou viveu outras vidas, cada vida será vivida de forma singular, única.

Quando a vida não vale a pena

Nietzsche dizia que “aquele que tem um porquê enfrenta qualquer como”. Quando o porquê se perde, tudo vira peso. Quando não há o que podemos chamar de propósito, o pensamento de finitude aparece: “Se for só isso, então tomara que acabe logo.” Não é revolta, é desistência silenciosa. É como quem vai ficando para trás, devagar, sem fazer barulho.

E o pior: esse sentimento não atinge só quem está em sofrimento extremo. Às vezes, pessoas aparentemente funcionais, com rotina cheia, rede social movimentada, carreira sólida, família formada… também vivem assim. Esperando que tudo passe. Como se estivessem apenas sobrevivendo aos dias. Que venham as sextas-feiras, os happy hours. as férias… doce engano, até elas acabam.

Como sair desse ciclo?

  1. Reconhecer esse pensamento como um sinal.
    Não normalize essa sensação. “Tomara que acabe logo” não é só uma frase: é uma bandeira de alerta que sua alma está levantando.
  2. Rever os sentidos da vida.
    O que você ama? O que te move? O que te anima? Em que momento você se sentiu verdadeiramente vivo pela última vez? Talvez seja hora de se reconectar com isso — mesmo que aos poucos.
  3. Mudar o que dá pra mudar.
    Não dá pra reinventar a vida toda de uma vez, mas dá pra começar por uma parte. Pequenas alegrias, pequenas rotinas, pequenos encontros. Algo que quebre o ciclo da pressa pelo fim.
  4. Buscar ajuda se for necessário.
    Psicoterapia é espaço seguro pra falar dessas dores sem ser julgado. Às vezes só colocar pra fora esse desejo de “que acabe logo” já traz alívio. Às vezes é mais grave e precisa de intervenção clínica. Mas sempre há algo que pode ser feito.
  5. Criar novos sentidos.
    Se os antigos já não servem mais, que tal construir novos? Viver não é encontrar um grande propósito pronto. É fabricar pequenos significados ao longo da jornada.

Finalizando

Viver não é aguentar até o fim — é se permitir encontrar sentido durante o caminho. Se você tem vivido nesse modo automático, desejando que tudo acabe, pare e pense: o que exatamente você quer que acabe? E o que poderia começar no lugar?

Talvez a resposta não venha hoje, nem amanhã. Mas quando o pensamento “tomara que acabe logo” for substituído por “tomara que dure mais um pouco”, aí sim, você estará de volta.

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 25/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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