A minha tamareira

uma reflexão sobre o plantar mesmo que não se colha

Plantando Tâmaras e Colhendo Reflexões

Recentemente, comecei um novo hobby: plantar sementes das frutas que consumo. Já tentei várias, algumas com sucesso, outras não. Hoje, na data desse artigo, tenho mudas de caju, jatobá e tâmaras. Confesso que fiquei surpreso com a germinação das últimas. Por estarem desidratadas e vindas do supermercado, imaginei que seria quase impossível obter sucesso.

Depois de comer o pacote todo de tâmaras, lavei as sementes, coloquei em um pote com um guardanapo de papel e levei à geladeira por 48 horas. Arrumei uns potinhos e plantei-as deitadas – umas 20, mais ou menos. Ficaram enterradas por um bom tempo, cerca de quase um mês, sem esboçarem alguma germinação.

Intrigado e já sem paciência, resolvi lavar a terra de um dos potinhos e, para minha surpresa, bem no meio da semente, na horizontal, um pequeno broto começara a sair para fora. Lavei todas e, incrivelmente, todas as sementes estavam brotando. Plantei-as novamente e aguardei, molhando todos os dias, pelo menos uma vez.

Após 3 meses, hoje tenho umas 10 delas já com folhas saindo da terra! Impressionante.

O ditado das tamareiras

Comentei há um tempo atrás, logo no início, quando percebi que estavam germinando, em uma reunião de família sobre a tal proeza. Recebi um comentário com certo espanto: “É, plantou, mas não vai colher. Esse é o ditado das tamareiras.”

O espanto não foi pelo fato de saber que não iria colher as tâmaras, mas sim pela tal pessoa estar explicitamente interessada no resultado da “coisa”. Levando isso em consideração, imagino que, se dependesse dela para que houvessem tamareiras no futuro, nossos filhos e netos nunca conheceriam o doce sabor de uma tâmara seca.

Entendo que o tal comentário não tenha sido maldoso, mas, como psicólogo, inevitavelmente, a atenção flutuante fez o seu papel: “Opa! O que ela disse?” E sim, no final, era exatamente isso: a expressão de que, se não for me beneficiar, por que se preocupar?

A dor do umbigo

É provável que, em um momento ou outro da vida, venhamos a pensar dessa forma – não por maldade (assim espero), mas por aquela necessidade que o ser humano tem de olhar apenas para o seu próprio umbigo. Isso tem a ver com a dor! A minha dor é muito maior do que a sua; logo, a minha urgência é maior do que a sua. Vemos isso a todo momento, principalmente nas unidades de pronto atendimento, que precisam criar protocolos – “Crianças e idosos primeiro” – para que todos nós não venhamos a sentir que estamos sendo “passados para trás”.

Pensar em si mesmo é uma necessidade, mas só em si mesmo é narcisismo puro. Em uma sociedade, é preciso colaboração, ou estamos fadados a desaparecer como espécie. Faça coisas boas, mesmo que você não as colha. Você provavelmente será lembrado por isso! Quem dera meu filho um dia diga: “Meu pai plantou essa tamareira. Ele não comeu, mas plantou para gente!”, dito em uma noite ao redor de uma fogueira, contando para meus netos. Lindo!

Plantadores de tamareiras

Não dou exemplo pra nada, mas torço para que hajam mais “plantadores de tamareiras” nesse mundo, que algumas delas venham a vingar, e que essas pessoas sejam lembradas pelo que eram, não pelo que tinham. Não pelo pensamento pobre de que só planto se eu puder desfrutar, mas pelo ato de entregar, sem receber nada em troca!

“Amar é dar aquilo que não se tem, sem esperar nada em troca.”

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 09/03/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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