sobre deixar a vida seguir o seu fluxo
Salvando Passarinhos e Aprendendo a Deixar Ir
Aqui em casa, é muito comum aparecerem filhotes de passarinhos, normalmente de rolinhas. Caem dos ninhos e, por várias vezes, tento salvá-los, mesmo estando machucados pelas quedas – asas quebradas ou atacados pelos gatos. Temos 4 “brincalhões” aqui. Eles não matam ou comem, mas suas unhas e dentes afiados acabam machucando os filhotes já quase findados
Até hoje, não tive sucesso. E a tentativa me faz ter que lidar com vários lutos consecutivos, não muito agradáveis por conta do insucesso do salvamento. Infelizmente, eles acabam falecendo, mesmo diante dos cuidados que me proponho a realizar.
O encontro com o filhote de Bem-te-vi
Um belo dia, saio de casa para o jardim em frente. Olho para o lado e, logo próximo ao meu pé, dou de cara com um filhote de Bem-te-vi, ainda novo, voando com dificuldade, mas sem machucado algum. Me antecipo a trancar os gatos em casa e então o recolho para o rancho, dentro de uma caixa de sapato.
Procuro os pais ou o ninho de onde a pequena criaturinha caiu e não encontro nem um nem outro. Faço uma papinha com o que tenho em casa – fubá – e o alimento, mesmo sob resistência. Ele não queria abrir o bico de jeito nenhum.
A busca pelos pais
Depois de algumas horas, ouço o canto dos pais próximos ao telhado. Levo, então, o filhote para o telhado e o deixo lá, sob vigia. A cada 5 minutos, volto para dar uma olhada, mas os pais não o encontram. Passadas umas duas horas, peço ajuda ao meu filho para colocar uma escada no telhado e recolhê-lo novamente. O tempo estava “virando” para chuva, e fiquei com pena de deixar o filhote ao relento.
Me deparo, então, com um dos pais. Carregava uma minhoca no bico para o filhote. Desço novamente da escada, mais aliviado. “Eles o encontraram!”, digo feliz ao meu filho. Mesmo assim, mantenho os olhares no telhado, não satisfeito por conta do tempo: “Meu Deus, vai cair um dilúvio!”
Acompanho o filhote correndo pelos telhados à minha frente, em direção aos pais que o chamavam pelo canto característico, até perdê-lo de vista. Minutos após, a chuva chega intensa! Muita água, muita mesmo. Fico angustiado e saio no meio da chuva a procurar algum filhote caído pela rua, pela calçada ou mesmo na enxurrada. E nada!
A chuva cessa, e as buscas também. Não sei qual foi o paradeiro do filhote. Isso me entristece mais uma vez, frente às inúmeras tentativas de salvar, e sem a certeza de que ele tenha conseguido.
Reflexão: o que eu desejaria?
Dias depois, ainda penso no ocorrido. Faço, então, uma reflexão:
Se fosse eu o passarinho, o que desejaria? Estar com meus pais, mesmo diante da possibilidade de não sobreviver, ou escolheria ficar com um ser que nada tem a ver comigo, mesmo tendo as melhores das intenções de me “salvar”? Bom, a resposta, acredito que todos nós tenhamos concordado em unanimidade: “Prefiro ficar com os meus!”
Toda vida tem seu ciclo. Nós, como humanos, projetamos em outro “objeto” o que nos falta – nesse caso, ser cuidado. Esse era o meu desejo, não o do pequeno pássaro. E, em determinados momentos da vida, é preciso entender que, mesmo com o conhecimento do perigo, com a probabilidade quase certa de que algo possa dar errado, é preciso deixar ir.
Aprendendo a deixar a vida seguir seu fluxo
Cada vida é única, sim! Mas achar que somos os todo-poderosos salvadores da humanidade me remete ao exagero. Deixar a vida seguir seu fluxo pode ser perturbador e, às vezes, amedrontador. Mas aprendi até onde eu poderia ir. Abriguei, alimentei e devolvi para “a vida”. Se não o tivesse feito, teria sido o ladrão – aquele que se apossa da vida do outro, aquele que sabe de tudo e o melhor caminho. Patético!
Como disse, essa sempre será minha dúvida: o filhote sobreviveu? Não sei! Mas sei que, se fosse para partir, gostaria que fosse o mais próximo possível “dos meus”, dos que me amam! E ele me ensinou isso naquele dia.
E você? Com quem quer estar quando partir?
Espero que, assim como eu, esteja rodeado de pessoas que lhe querem bem. Nessa questão, sou o mais rico de todos!
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 11/03/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung