uma reflexão sobre o apego e seus efeitos
Parece um movimento de alguém que tem coragem de enfrentar, daquelas pessoas que não desistem nunca de um objetivo, que não caem por qualquer coisa, corajosas e otimistas, porém, algo pode estar escondido diante dessa atitude de persistência, não algo bom, mas algo que começa a destruir a gente por dentro, isso se chama apego.
Persistência cega ou resistência consciente?
Mas pera aí! Não é isso que devemos fazer? Manter-se motivado a todo custo, não importando a situação, seguindo em frente ao objetivo traçado com coragem e determinação? Claro, isso é esperado, é saudável e característica marcante de pessoas maduras que sabem que na vida nada vem fácil. Porém, como nem tudo na vida é “pau e pedra”, é preciso repensar até esse tipo de comportamento tido como um ato de “resistência”, “persistência” e “determinação” pelas pessoas que estão aqui do lado de fora.
Há uma diferença gritante do estado mental de quem está na linha da determinação do que quem está na aceitação! Percebe? Talvez você não consiga enxergar isso na outra pessoa, e olhe para ela como sendo um exemplo a ser seguido, mas, pode ser que aquela pessoa esteja muito mais no “aceita que dói menos” do que para um “bora que a coisa melhora!”. São dois estados distintos e completamente opostos.
O “bora que melhora!” é motivante, a energia está no seu estado positivo, os reflexos e a atenção “tinindo” para encontrar soluções porque o objetivo lá na frente está claro e perceptível. Já no “aceita que dói menos”, a energia já tende ao negativo, o corpo fica em um estado depressivo, de lerdeza, de “eu nem queria estar aqui!”. E a gente olhando de fora uma pessoa nesse último estado pode pensar: “Nossa, apesar de tudo ela continua firme!”, um sentimento até de orgulho por ser amigo de tal ser humano, “resiliente” e “persistente”! 🙂
O medo que aprisiona
Doce engano! O estado de “aceita que dói menos” significa claramente um apego à situação que, na mente, já se encontra perdida e sem futuro, sem a mínima vontade de luta. A batalha se foi e a pessoa não consegue mais lutar. Ela não morreu, mas também tem dificuldades de viver, está em um estado de esperança de um “por favor alguém me salve”, estagnada e sem perspectiva de que ela mesma consiga resolver a situação.
Mas por quê? Pelo medo! Claro! O medo de que a coisa fique ainda pior, porque se ficar, vai doer mais. Então o estado de “aceita que dói menos” é bem-vindo. Fico prisioneiro dele ao perder a batalha, mas pelo menos não me mataram. Está dando minimamente para sobreviver. O que é bem diferente de viver. O ser humano precisa muito mais do que suas necessidades básicas para se sentir completo. (vide pirâmide de Maslow).
Apegos excessivos podem ser, em sua grande maioria, armadilhas disfarçadas de segurança. No emprego, na relação, na rotina que se repete, mesmo que seja tóxica, sufocante ou insalubre, a gente se prende porque o conhecido assusta menos que o desconhecido. O velho “melhor um inferno conhecido do que algo que eu não tenho ideia do que será”. O desconhecido sempre assusta. A pessoa aceita migalhas de reconhecimento, tolera desrespeito, engole cobranças impossíveis, tudo para não perder o “lugar seguro” onde, pelo menos, parece haver algum controle.
Apego disfarçado de segurança
Psicologicamente, esse apego nasce do medo profundo da rejeição e do abandono, lá no desenvolvimento inicial, na infância com papai e mamãe. Quando não os tem por algum motivo, a coisa pode piorar ainda mais. É uma dinâmica que, segundo a psicologia, pode ter raízes em feridas do passado, carência de acolhimento, vínculos inseguros, abandono precoce. Tudo isso leva a um apego que sacrifica o próprio valor para não ficar só. A dor é tão grande que a gente vende a alma para caber em lugares onde jamais houve acolhida verdadeira.
É um apego ansioso que faz a pessoa trocar a própria paz por pequenas doses de aprovação externa, mesmo que isso a desgaste por dentro. No trabalho, muitas vezes, isso significa se manter em empregos que corroem a saúde mental, que atropelam limites, que destroem a autoestima.
Nos relacionamentos, a situação, o contexto, é o mesmo, se repete. O apego doentio faz a pessoa tolerar atitudes que ferem, se entregar demais, esperar desesperadamente por migalhas de afeto. Relacionamentos tóxicos sempre existiram. Corro o risco de dizer que, apesar de não parecer, no passado a coisa era muito pior, tendo em vista como as mulheres eram subjugadas, sem direitos e quase que inexpressíveis.
Romper com esses padrões exige coragem e principalmente autoconhecimento, um ego reparado e fortalecido e consciente dessa falta! Reconhecer que essa segurança oferecida pela rotina e pela aprovação ilusória tem um preço altíssimo: a própria identidade, o amor-próprio, a saúde emocional. Segurança real não é se prender ao que machuca, com o medo de que a mudança pode piorar a situação mais ainda, mas construir internamente um espaço firme, onde você possa existir inteiro, com limites, desejos e imperfeições.
Chega de se defender, resolva!
O apego excessivo é um mecanismo de defesa que se transforma em prisão.
Vale mesmo a pena trocar sua paz, seu equilíbrio, sua liberdade emocional, por migalhas de aceitação?
Esse questionamento é um convite para despertar. A mudança não deveria ser uma opção apenas no âmbito da possibilidade do “será?”, mas o caminho para se reencontrar, para ser inteiro, para ser livre. Você merece mais que migalhas. Você merece paz.
Um abraço e fiquem bem.
Rodrigo Bazzan – 30/05/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung