uma reflexão sobre quando decidimos por nos transformar
A lagarta que se transforma em borboleta, as ninfas das cigarras, que ficam anos embaixo da terra para depois saírem e eclodirem, até as joaninhas que são tidas como um dos insetos mais belos e amigáveis quando adultas, passaram por uma transformação tremenda, eram horripilantes quando eram larvas. Transformação!
O que significa transformar-se?
O significado de transformação é: fazer passar ou passar de um estado ou condição a outro; converter(-se). Transformar é formar novamente, algo novo ou pelo menos diferente do estado anterior. Como quase tudo na vida, a transformação pode ser “boa” ou “ruim”, e isso dependerá de vários fatores e do ponto de vista de quem avalia/observa. E quando a transformação vem? Quando o estado atual não pode mais se manter por algum motivo. Temos como exemplo a biologia dos seres vivos, onde a transformação ocorre de forma programada em cada ser, independentemente da vontade dele.
A inevitabilidade dos ciclos humanos
Não adianta uma borboleta querer pular etapas e nascer logo com asas, nem você ou eu, tendo em vista as dificuldades encontradas em algum estágio de desenvolvimento, pular automaticamente para o próximo. Estamos fadados a continuar e viver cada ciclo enquanto vida tivermos: nascemos, crescemos, reproduziremos (nem todos) e morreremos. Sempre!
O desejo de mudar: entre o medo e a coragem
Mas o ser humano, complexo que é, pode mudar em outros aspectos. O seu sistema nervoso lhe provê a possibilidade de possuir a cognição mais avançada de todos os seres, de tal forma que suas características de como pensar ou agir, a despeito de algo, podem mudar de forma singular. O que significa isso? Que, em tese, não há padrões biológicos que definem uma opinião. Cada um de nós criará a sua, tendo em vista a interpretação que faremos da vida em que estamos vivendo.
Em dado momento, você irá se deparar com uma versão de si. Pode ser que ela não te agrade. É possível então que um sentimento de mudança, de “preciso mudar”, apareça e comece a lhe dar um certo trabalho, pelo menos um desconforto, que pode ir aumentando até que então a necessidade de mudança se torne eminente, às vezes impossível de não acontecer — tanto para o bem como para o mal. E entenda bem ou mal como saudável ou não saudável para o indivíduo e para as pessoas que se relacionam com ele. A vida é relacionamento, não se esqueça nunca disso!
A profundidade da verdadeira transformação
Então, dizer “quero transformação” é, antes de tudo, um grito de inconformismo. É o momento em que algo dentro de nós diz: “não dá mais para continuar assim”. Parece simples, parece libertador, e às vezes se torna mesmo um grito de liberdade, mas, ao contrário do que se imagina, esse desejo vem acompanhado de dores, rupturas e perdas, porque transformar-se implica necessariamente em destruir estruturas antigas. Não há mudança sem desconforto. Não há renascimento sem morte simbólica do eu anterior.
Muitos confundem transformação com melhora. Melhorar é ajustar, é ajeitar os móveis do cômodo. Transformar é demolir a casa e reerguê-la com nova fundação. A primeira assusta menos. A segunda é profunda e, por isso mesmo, mais verdadeira. Mas quem está disposto a perder o que conhece, mesmo que seja disfuncional, ruim e às vezes até mal, por algo que ainda não sabe como será? Desmontar a si mesmo dá medo — vai que eu não saiba mais como montar novamente? É o medo de perder a identidade, construída a duras penas. Pode ser péssima, mas ser nada é pior ainda.
A mente racional tenta justificar o retorno à zona de conforto, e aí vêm também as culpas: “Será que eu tenho o direito de mudar?” “Será que estou sendo egoísta em me escolher agora?”. O inconsciente resiste, porque o novo é incerto, e o nosso psiquismo, em sua base, busca segurança. Já pensou mudar e o entorno não gostar nem um pouco dessa sua nova versão? A mudança lhe cobrará coragem!
É preciso desejar para transformar
Ao desejar uma verdadeira transformação, velhas feridas ressurgem. Com certeza, o resultado de transformações passadas pesará bastante nessa nova empreitada. Se foram positivas, é possível que lhe deem um motivo para continuar, mas se a experiência de uma transformação passada não foi fácil, apesar do resultado ter sido positivo, é provável que o desconforto gerado anteriormente tenha um peso muito grande nessa nova decisão.
A psicologia nos ensina que a verdadeira mudança só ocorre quando o sujeito se implica. Isso significa deixar de responsabilizar o mundo, os outros, a vida, e assumir o protagonismo do próprio processo. Quando ele entende que a vida dele é ele quem vive, os outros são expectadores, e não conseguem sentir o desconforto que existe no estado atual. É doloroso, porque exige renúncias. É solitário, porque nem todos que nos cercam entenderão ou apoiarão esse novo movimento. E é lento, porque os resultados muitas vezes serão colhidos até mesmo anos após a decisão.
Transformar-se é um processo. Não há linha de chegada, há caminho — um dia após o outro, uma transformação após a outra. E esse caminho passa pelo autoconhecimento, pelo reconhecimento das próprias dores, pela aceitação das próprias sombras e pela coragem de não voltar atrás mesmo quando tudo dentro de si grita por estabilidade. A transformação exige paciência, persistência e muito, muito acolhimento interno. Você não será o mesmo depois, e é justamente isso que assusta. Mas será exatamente isso que trará libertação e crescimento.
O caminho é caminho, a história é você quem faz!
Um abraço e fique bem!
Rodrigo Bazzan – 02/06/2024

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung