Estou cansado pra descansar!

uma reflexão sobre o cansaço.

Normalmente, tenho acordado às 04h45 para ir à academia. É preciso cuidar do corpo, da saúde biológica. Seria ótimo se a saúde mental recebesse a mesma intensidade de atenção — o que, sem dúvida alguma, em alguns momentos deixamos em segundo plano. Com um pouco de sorte, às vezes ela acaba ficando em terceiro lugar.

Acabo o treino por volta das 06h10. Corremos de volta para casa — eu e meu parceiro de treino, meu filho — para então tomarmos banho, fazermos o café e nos prepararmos para sair às 06h50. Cada cônjuge para o seu trabalho, e o filho para a escola. Saímos do trabalho às 17h30. Eu continuo os atendimentos no período noturno até as 21h00. Já houve momentos em que terminei às 22h30. E então tudo se repete no dia seguinte. Ufa!

O que temos? Cansaço! Inevitável!

O fim de semana (não) chegou

O final de semana chega, e há muito o que fazer em casa. Coisas para consertar, jardim para podar, gatos para cuidar — em casa são quatro. Ainda é necessário tempo para leitura, estudo dos casos que estão em atendimento, terminar a diagramação dos livros que já escrevi, mas ainda não publiquei. Também é preciso tempo de qualidade com o filho, com a esposa… e por aí vai!

Ah, mas também tem que haver tempo para descanso. Aproveitar o final de semana, afinal, “DSR” significa Descanso Semanal Remunerado, mas estou começando a acreditar que tem alguma pegadinha aí 😁. Quando a segunda-feira chega novamente, parece que estou mais cansado do que quando cheguei em casa na sexta-feira. Corrigindo: parece não, estou mesmo!

O introvertido quer ficar em casa para recuperar a energia. Já os extrovertidos precisam sair, ver gente, passear. Quando se casam — o que é o meu caso — há sempre um “conflitosinho” para decidir o que fazer. Afinal, ambos estão cansados, e a direção para o descanso de cada um é completamente oposta.

Produtividade a qualquer custo

Mas por que tanto cansaço? Talvez a resposta seja: produtividade!

Temos sido ensinados, há bastante tempo, que o valor de uma pessoa é medido pelo quanto ela produz. Pense em uma linha de produção: quem é o “melhor” funcionário? Aquele que, em termos produtivos, tem os melhores números. Produz mais, não falta, não questiona — apenas faz. Mais e mais a cada dia. Esse é o “melhor” funcionário para a empresa.

Alguns dirão que não, que hoje em dia as empresas estão olhando mais para o bem-estar psico-social dos trabalhadores, estão mais “humanizadas”. “Conversa pra boi dormir”. No capitalismo, a questão é dinheiro — e sempre será. Se há uma preocupação com isso, é porque alguém está perdendo dinheiro. Então, melhor dar uma olhada e “trazer os ‘doidos’ de volta para o trabalho”. Se a medicação não está dando mais conta, precisamos mudar a estratégia. Por quê? Porque os lucros estão indo embora — não porque amamos nossos funcionários.

Mesmo assim, com essa “mudança de paradigma”, um olhar mais humanizado direcionado à qualidade de vida continua muito distante da maioria.

O WhatsApp te encontra em qualquer lugar! Uma ferramenta incrível de comunicação que muitas vezes é usada para atormentar, até mesmo no tempo que deveria ser de descanso. Estamos conectados 24 horas por dia. Solução? Silenciar às vezes resolve. Mas a angústia de manter-se produtivo é mais forte. E lá vamos nós dar uma “olhadinha”. Me assusto com 56 mensagens não lidas… e então entro no ciclo novamente.

Desejo de ser visto

E por que eu quero ser o melhor? Por que preciso ser tão produtivo? Parece óbvio, mas nem tanto. Há sempre algo mais latente, escondido por trás desse desejo. Entre os mais comuns, a inveja. Sim, eu invejo as conquistas do outro e preciso, no mínimo, ter o mesmo. Se ele tem um celular X, eu quero um X1. Por quê? Para ser “melhor” que ele. Ninguém gosta de perder. Aqui no Brasil, o segundo lugar é o primeiro dos perdedores.

Outra possibilidade: a falta dos pais na educação dos filhos. Se, mesmo sendo quem eu sou, eles não me veem, não me validam… então preciso ser algo mais interessante, mais esplendoroso. Não posso ser “só isso”, caso contrário eles não me notarão. O desejo e a necessidade de elogio quase sempre estão ancorados nessa falta, vivida na infância ou adolescência. Se não pude satisfazer o meu desejo de ser reconhecido pelos meus pais como “algo bom”, continuarei tentando provar, de maneira inconsciente, pelo resto da vida. Ou até perceber o que estou fazendo — normalmente depois de uma crise existencial, cheia de porquês, onde tudo perde o sentido.

Descansar é resistência

O descanso tem se tornado pecado! Interessante como podemos pensar dessa forma. Já viu alguém fazer um comentário ao ver alguém deitado numa rede, embaixo de uma sombra? Lá vem a expressão: “Mas que folga, hein? Trabaiá qué bão nada, né?”. As maiores verdades são ditas em tom de brincadeira — ou quando se está embriagado. Infelizmente, é assim que pensamos.

E o pior: temos quase certeza de que não merecemos a rede. Há tanto o que fazer, há tanto o que conquistar. Ficar parado parece não ser uma opção.

Mas precisamos dar meia-volta. Esse caminho não nos levará para onde queremos, de fato, ir: um lugar de paz e descanso, sem culpa e rodeado de amor. Esse lugar, tomando como base uma passagem cristã, seria o próprio Jardim do Éden. E, se o próprio Criador do jardim descansou ao final da sua criação… quem a gente pensa que é?

Talvez outra grande questão seja o automatismo. No automático ninguém pensa. É um ciclo sem fim, como uma máquina repetindo o processo até que começa a dar defeito. Aí jogamos no meio dela alguns comprimidos especiais, com a intenção de diminuir os sintomas. Mas apenas postergamos algo inevitável. Uma hora ela desmonta. A conta chega. E o estrago é grande.

Para pensar, é preciso descanso. É preciso parar. É preciso se amar.

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 14/04/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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