Meu companheiro ódio!

uma reflexão sobre o ódio, seu papel e duas implicações

Tem gente que convive com o ódio como se fosse parte da família. Está sempre por perto, acompanhando os passos, dormindo do lado, tomando café junto. Um sentimento quente, vivo, que dá sentido para algumas dores que não foram digeridas.

O curioso é que esse ódio, por mais desconfortável que pareça, muitas vezes é acolhido como se fosse um amigo fiel. Ele responde rápido quando o mundo machuca. Ele protege quando a vergonha tenta aparecer. Ele faz barulho quando o silêncio da mágoa ameaça afundar o peito.

Por que a gente se apega ao ódio?

O ódio entra quando o amor não deu certo. Quando a confiança foi traída, quando o cuidado virou descaso, quando o “pra sempre” virou adeus. Tem gente que não suporta o vazio da ausência, então preenche com raiva. E é aí que nasce essa relação estranha com o ódio. Ele se torna presença constante, evita o colapso. É como dizer: “Se eu tiver ódio, pelo menos sinto alguma coisa.”

Em muitos casos, a pessoa nem percebe que está alimentando esse sentimento. Ele vira um modo de estar no mundo. Uma lente por onde tudo é interpretado. Só que isso cobra um preço. O corpo sente. A cabeça pesa. As relações se tornam mais duras, mais fechadas, mais defensivas. E o afeto vai ficando cada vez mais difícil de alcançar.

O que o ódio esconde?

Na maioria das vezes, o ódio vem para esconder outra coisa: tristeza, medo, abandono. É uma defesa emocional. Ele endurece pra não deixar transparecer a fragilidade. Só que quando a gente só vive na defensiva, vira prisioneiro do que nos feriu.

Manter o ódio por perto é como manter a ferida aberta. Você não esquece. Não deixa pra lá. Não cicatriza. Fica revivendo. E isso esgota.

Existe saída?

Sim. E não começa com “deixar de sentir” do dia pra noite. Começa reconhecendo. Nomeando. Ouvindo o que esse ódio está tentando dizer. O que ele está protegendo aí dentro? O que ele te impediu de sentir?

Procurar ajuda é uma forma de cuidar disso. Falar sobre esse sentimento num espaço seguro pode abrir caminhos novos. A raiva pode ser compreendida, não sufocada. E com o tempo, ela perde a força.

Perdoar não é esquecer. É escolher não se intoxicar mais. É não deixar que quem te feriu continue te controlando de dentro. Porque a raiva até pode ter feito sentido lá atrás, mas hoje talvez esteja só te fazendo companhia na dor.

E sinceramente? A gente merece companhia melhor.

Um abraço, e fiquem bem.

Rodrigo Bazzan – 24/04:/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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