Mr. Perfeição e Diva Suprema

O impacto do perfeccionismo na produtividade.

Mecânica Geral: uma pegadinha?

Minha formação primeira é Mecânico Geral. Estudei na Escola SENAI “Manoel José Ferreira”, aqui em Rio Claro – SP. Contextualizando um pouco, acredito que alguns de vocês também tenham caído nessa pegadinha: “Mecânica Geral” não significa que você aprende a ser mecânico de tudo – de carro, avião, navio, etc. Interessante o nome, né? Muito abstrato para o meu gosto atual. Acredito que ele ainda esteja fazendo vítimas. Quando entrei no curso, imaginava exatamente isso!

” – Cadê os carros?”, perguntei no primeiro dia de aula para um colega de turma.
” – Ué, você não é da turma de Mecânica Geral?”
” – Sim! Passei em 23º.”
” – Aqui não tem carro não, tio! Pra aprender a ‘mexer’ em carro, você tinha que ter se inscrito em Mecânica de Autos. Tá maluco?”

Imaginem a minha decepção! Estava em um curso que não fazia ideia do que se tratava. Bom, mas já que tinha que aprender algo, continuei. Mecânica Geral, na verdade, deveria se chamar Mecânica de Usinagem. A gente não aprende a consertar máquinas; a gente FAZ as máquinas! Projeta as peças e transforma pedaços de aço, alumínio, cobre, ferro fundido (odeio!) e outros materiais em peças de maquinário.

Quando você compra uma peça para o seu carro, por exemplo, foi uma pessoa da área de mecânica de usinagem que se envolveu no processo de fabricação do tal objeto.

Precisão milimétrica

A maioria das peças de usinagem tem medidas muito precisas. Pegue uma régua, aquelas de plástico mesmo. Cada tracinho daquele, o intervalo entre eles mais especificamente, representa 1 milímetro. Agora, divida um milímetro por mil: teremos milésimos de milímetro. Essa é a precisão comum em peças de usinagem. Peças mais complexas e precisas podem requerer décimos de milésimos de milímetro – que é pegar um milímetro, dividir por mil, pegar esse pedacinho que sobrou e ainda dividir por 10. É bem pequeno mesmo. Precisão!

Para uma peça estar perfeita, ela precisa estar dentro dos parâmetros de precisão estabelecidos pelo projetista. A precisão é muito importante para que o funcionamento da peça ocorra como o esperado. Se não estiver entre os parâmetros, a peça não serve e é literalmente descartada. Chamamos isso no meio de “a peça está morta!”. É triste quando isso acontece, mas acontece sempre.

Mas, mesmo nesse nível de precisão, o projetista precisa trabalhar com uma margem de “erro”, de aceitação da variação de medida da peça. Elas nunca saem na mesma medida; variam para um pouco a mais e um pouco a menos. Chamamos isso de medida máxima e medida mínima aceitável. Guarde isso!

A definição de perfeição

Qual a definição de perfeição? Fui procurar porque nem eu tinha isso corretamente definido. Então, temos no Dicionário Aurélio“Perfeição” é definida como:

  1. Qualidade do que é perfeito; excelência, primor.
  2. Estado ou caráter do que atingiu o mais alto grau possível em sua categoria.
  3. Aquilo que é perfeito em seu gênero.

Ou seja, perfeição é algo sem defeitos, completo, que atingiu seu nível máximo de qualidade.

Beleza? Joia. Agora, preste bem atenção nisso: quem definiu o “…seu nível máximo de qualidade.”? Ora, o projetista! Diante de um problema, ele projeta uma solução, com peças precisas, às vezes com uma precisão absurdamente complexa. Mas, até nesses casos, há uma aceitação de variação nas medidas, para mais ou para menos.

Mr. Perfeição e a Diva Suprema

Mas nós, o senhor Mr. Perfeição e a Diva Suprema, não conseguimos lidar muito bem com isso. Não aceitamos nenhum nível de variação. Pior: nunca conseguimos chegar no nível de qualidade que estipulamos para nós mesmos. Você leu direito? Vou repetir: “…no nível de qualidade que NÓS ESTIPULAMOS para nós mesmos!”

Começa com aquela falsa humildade. Alguém fala sobre a sua comida: “Eu nunca comi uma comida tão boa, parabéns!” Aí a gente responde: “Ai, faltou um pouco de sal, e eu acho que deu uma queimadinha na carne, podia ter ficado melhor!” Chamo de falsa humildade porque o que a gente quer mesmo, no final, é uma massagem no ego! Que alguém de fato nos elogie, porque a gente mesmo não dá conta de se valorizar.

A raiz do perfeccionismo

O processo que acontece com os “Mr. Perfeição” e as “Diva Suprema” é mais ou menos o seguinte: desejamos um ideal de EU perfeito. Por quê? Na maioria das vezes, pela falta de reconhecimento na infância das coisas boas que conseguíamos fazer. Quando algo saía do controle e errávamos, éramos duramente castigados. Quando fazíamos algo que nos saltava os olhos de tão bom que tinha sido, o retorno dos pais/cuidadores, que deveria ser motivador, era no máximo: “Você não fez mais do que sua obrigação!”

Lembro-me até hoje quando tirei o meu primeiro “C”. Foi na quinta série. Sempre fui aluno de “A, B”. Na quarta série, eu tive 3 “B” no ano todo; o restante, todas notas máximas “A”. Sabe o que aconteceu quando eu tirei um “C”? Escutei bem assim: “Nossa, ‘C’ já é quase ‘D’!” Não apanhei, mas, naquela situação, acredito verdadeiramente que teria sido melhor. Talvez o trauma tivesse gerado revolta, mas gerou uma pessoa que, por muitos anos, sempre se dedicou para ser o melhor em tudo que fazia e nunca esteve satisfeita consigo mesma. Afinal, “C” é quase “D”, então… “A é quase B”. Entende onde foi parar o nível de exigência?

A necessidade de agradar

Há sempre uma necessidade de agradar dos perfeccionistas. É uma compensação pela falta de reconhecimento e amor! Se eu faço bem, tenho migalhas de amor. Como não tenho atenção necessária, serei o melhor que puder para então ser visto. Não posso me dar ao luxo de “dar trabalho”. Afinal, se sendo o melhor em tudo não sou visto, imagine errando! Pesado demais!

Com o tempo, você precisa se livrar disso! Ou adoece, como adoeci em um momento da vida. É como colocar um motor de carro para funcionar em sua maior potência, sem descanso, eternamente. Uma hora, ele funde. Não tem escapatória!

Aprendendo a pisar no freio

Muito tempo se passou, muita terapia, e hoje, ainda em alguns momentos, luto contra isso: contra a produtividade exagerada, contra a falta de tempo para mim mesmo, aprendendo e reconhecendo que quem ama, ama independentemente do que eu possa produzir em termos materiais. Quando tive meu filho, foi um divisor de águas. Pude entender melhor essa questão do amor.

Amor é dar aquilo que você não tem, sem esperar nada em troca! É poder falhar e se reconciliar. É poder ser você mesmo, acelerando quando necessário, mas pisando no freio quando a coisa está indo além da conta.

Se você está vivendo assim, espero que, em algum momento, VOCÊ puxe o freio de mão! Caso contrário, é bem provável que continuar a viver a vida dessa forma, buscando esse nível de qualidade inalcançável que você mesmo criou, se mostre impossível, tornando-o uma pessoa infeliz e vazia de amor.

Rodrigo Bazzan – 20/02/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

Botões Alinhados