Sofro! logo existo?

sobre minha preocupação com a banal normalização do sofrimento.

O Pensamento que Define Nossa Existência

“Penso, logo existo!” Essa é a frase correta. René Descartes chegou a essa conclusão por meio da dúvida. Ele era um filósofo que duvidava de tudo e acreditava que a dúvida e a razão humana possibilitam o conhecimento verdadeiro.

Se eu penso, então eu existo! Outras coisas também existem, mas não se dão conta disso: pedras, árvores, animais — todos existem, mas sem a consciência de sua própria existência. Não têm ideia de que estão vivos e que um dia irão morrer. Neles, a essência precede a existência. O que isso significa? Sem consciência, são essencialmente o que são, vivendo uma “receita de bolo”. Um gato nascerá sendo gato, fará coisas que gatos fazem e morrerá sem desejos ou arrependimentos. Como diz Clóvis de Barros: “O gato gateia e o sapo sapeia, ponto!”

A Singularidade Humana e a Subjetividade da Dor

No ser humano, por conta da consciência, a coisa muda um pouco. Aqui, a existência precede a essência. O que isso significa? Primeiro, é preciso existir para, então, essencialmente ser — uma essência individual e única. Não sei se você já percebeu, mas, embora sejamos da mesma espécie, ninguém pensa exatamente igual a ninguém. Somos essencialmente diferentes uns dos outros. Temos consciência da nossa existência, por isso desejamos, nos frustramos e nos arrependemos. Nossos sentimentos são muito mais elaborados e complexos.

Da mesma forma que a consciência é uma “bênção”, também é uma “maldição”. Ou você nunca desejou, em algum momento da vida, trocar de lugar com seu gato, cachorro ou papagaio? Nunca quis ser outra coisa? Uma pedra, por exemplo! Essas “desgramadas” estão aqui desde que o mundo é mundo, e nunca vi nenhuma delas chorar ou se preocupar com boletos e responsabilidades. Em alguns momentos da vida, ser uma pedra me parece uma ideia muito atraente: eu continuaria existindo, mas sem preocupações, sem esses pensamentos confusos e sem controle.

A Dor Não Tem Régua

— “Ah, mas todo mundo sofre! Isso aí do que você está reclamando é ‘fichinha’ pra mim, que bobeira!”

Chegamos ao ponto!

Se somos essencialmente diferentes, qual é a régua correta para medir a dor emocional? A minha? A sua? A da OMS (Organização Mundial da Saúde)? Afinal, eles são o órgão máximo em saúde, deveriam ter uma “régua” para isso, certo? Pois é, não existe! Justamente porque a dor é subjetiva. O que dói em mim pode não fazer cócegas em você.

Portanto, ao meu ver, não há nada mais cruel do que duvidar da dor alheia. Quando fazemos isso, estamos medindo o sofrimento do outro com a nossa própria régua. Suicídios acontecem assim. Todo mundo acha que é exagero até que a pessoa parte. Aí, lamentamos, sentimos remorso, entendemos que poderíamos ter feito algo. Isso é muito comum. Triste!

Se alguém está reclamando de algo, é porque algo não está bem. Mesmo que, no “frigir dos ovos”, seja um meio de chamar a atenção, tal comportamento é, sem dúvida, fruto de um problema mais profundo e precisa ser tratado. Ninguém reclama de algo se está plenamente satisfeito com sua vida. Se está “doendo”, não sou eu ou você que podemos decidir o tamanho dessa dor.

A Psicossomatização e o Perigo do Silêncio

A vida é sofrimento? Na vida haverá sofrimento, mas também deve haver alegria, amor, compaixão, tristeza, ansiedade. A vida deve ser vivida por completo.

Há aqueles que não reclamam, que sofrem calados, por vários motivos. Essas são as pessoas que têm maior risco de desistir da vida. O tempo passa, e o acúmulo de sentimentos não compartilhados cria uma verdadeira “bomba” emocional. Ela vai “explodindo” de várias formas ao longo da vida do sujeito. As doenças psicossomáticas são as que mais acometem esse tipo de indivíduo: tosse persistente sem causa fisiológica, surgindo sempre que algo foge do controle; dermatites, psoríase, problemas intestinais, gastrite, úlceras, pressão alta, fibromialgia… e por aí vai.

Quando as doenças psicossomáticas não “param” o indivíduo, quando ele não entende que precisa de ajuda e que deve mudar sua forma de viver e interpretar a vida, coisas piores podem acontecer. O convívio social pode ficar prejudicado, às vezes se torna inexistente. Episódios de descontrole emocional podem se tornar frequentes: choro intenso, raiva sem motivo aparente, agressividade descontrolada — os sinais mais comuns.

Em meio a isso, começam as ideações suicidas, os planejamentos e, infelizmente, em muitos casos, a concretização da finitude. No caso dos homens, o índice de “sucesso” no suicídio é muito maior do que entre as mulheres. Isso porque, para um homem, seria vergonhoso expressar que não aguenta mais e, ainda assim, falhar no propósito de dar fim à própria vida. Seria como falhar duas vezes.

Setembro Amarelo e a Responsabilidade Contínua

Entendem a complexidade da dor?

Setembro Amarelo é um mês muito “bonito”. Ok, é um marco, e marcos servem para nos lembrar de assuntos importantes. Tem o seu papel. Mas, para mim, parece pouco. Simplista. A dor está ao nosso redor. Não olhar para ela, não prestar atenção, é uma escolha nossa.

Torço para que não seja apenas em setembro. Espero que, todos os dias, você encontre a possibilidade de oferecer um sorriso, um abraço, um café para alguém que esteja precisando. A psicologia tem o seu papel, mas, antes disso, somos humanos. Essencialmente humanos. Temos uma capacidade de reflexão e observação que não existe em nenhum outro ser no planeta. Somos privilegiados!

Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Então, fique de olho! Se perceber algo estranho, estenda a mão.

Abraços e fique bem

Rodrigo Bazzan – 21/02/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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